segunda-feira, 11 de abril de 2011


Na Escolinha nos ensinaram que Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, morreu por liderar um movimento que se revoltou contra a Coroa Portuguesa, de quem o Brasil era apenas Colônia. Por isso seria o grande mártir da independência do Brasil. Já no ensino médio a gente começa a descobrir o outro lado da história. Alguns professores compartiham, em off, o que os livros didáticos não trazem, que Tiradentes não passava de um mito fabricado.

A história é continuamente reescrita. À medida que a realidade presente muda, as interpretações acerca de um fato passado também são alteradas, buscando respostas que correspondam melhor às necessidades do tempo atual. Foi assim com a Inconfidência Mineira (1789). Poucos momentos foram tão debatidos, reescritos e apropriados quanto esse.

Durante boa parte do século XIX, a Inconfidência não assumiu lugar de destaque na historiografia brasileira. Tal situação modificou-se apenas na segunda metade do século, quando o princípio da nacionalidade tornou-se uma questão premente a ser resolvida. Urgia ao Brasil a construção de laços de pertencimento capazes de criar um sentimento nacionalista, e era fundamental encontrar os elementos fundadores da nação, construindo uma identidade que pudesse particularizá-la. Com o golpe militar que inaugurou a República em 1889, essas necessidades foram reforçadas. O regime instaurado de cima para baixo estava longe de apresentar-se como uma demanda da população em geral. Assim, era preciso legitimá-lo perante o povo, apresentando- o não como um elemento estranho à sociedade, mas sim como um desejo histórico presente havia muito tempo.

A solução para essas questões passava pela criação de um mito fundador que estabelecesse uma idéia de continuidade entre o fato presente e o passado brasileiro. Era necessário criar uma tradição republicana para a nação por meio de heróis que já tivessem ansiado pela implantação desse regime. Nessa ocasião, a Inconfidência Mineira e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, assumiram com propriedade o papel de precursores da República.

A escolha de Tiradentes como herói nacional não é difícil de ser explicada. Com a publicação da obra de Joaquim Norberto de Souza e Silva, História da Conjuração Mineira (1873), que ressaltava o fervor religioso do personagem nos últimos momentos de sua vida, inúmeras representações simbólicas tornaram-se possíveis, aproximando-o à figura de Cristo. Outro fator importante para essa opção foi que o movimento não aconteceu efetivamente, o que poupou os inconfidentes do derramamento de sangue e os manteve imaculados. Eles foram apenas vítimas da violência, nunca agentes.

A Inconfidência como objeto passível de ser novamente apropriado permitiu à historiografia refazer as linhas gerais do levante sempre que a conjuntura política brasileira teve necessidade de reavivar o sentimento nacional. Seu legado simbólico foi retomado de tempos em tempos, mais especificamente nos momentos de rupturas históricas no decorrer do século XX. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e até mesmo os militares de 1964, auto-intitulados “os novos inconfidentes”, apropriaram-se do fato histórico em favor de seus interesses políticos. Sob novas roupagens, o mito repetia-se incessantemente.

Contudo, não foram apenas os governos que utilizaram a influência do movimento e de seu herói. Muitas instituições também procuraram um “lugar ao sol” nessa festa de apropriações simbólicas. Foi o caso da maçonaria, que tomou Tiradentes como seu símbolo maior no Brasil ainda no século XIX. A partir de 1870, ocorreu um crescimento acelerado do número de lojas maçônicas no país e muitas delas foram batizadas de “Tiradentes”. Freqüentemente, suas bibliotecas tinham o inconfidente por patrono e até mesmo os jornais maçônicos carregavam seu nome. Já no século XX, Tiradentes pareceu ganhar em definitivo um lugar de destaque no panteão maçônico, tornando-se patrono da Academia Maçônica de Letras.

Mas por que esse mineiro poderia representar a maçonaria? Que legitimidade haveria nisso?

“Simples”, responderiam os historiadores ligados a essa organização: Tiradentes teria sido maçom, e a Inconfidência Mineira, uma conspiração maçônica em prol da libertação nacional!


Muitos maçons, historiadores ou não, aventuraram-se a escrever sobre o episódio para desvendar sua “verdadeira” história e demonstrar o papel crucial da maçonaria na definição dos acontecimentos de 1789. Em geral, essas narrativas começam demonstrando que a Inconfidência não foi um episódio regional. Tal movimento teria feito parte de um projeto internacional elaborado para tornar livres todos os povos oprimidos.

A Inconfidência, a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos seriam expressões de um mesmo fenômeno: o do anseio revolucionário por independência, democracia e liberdade que sacudiu a Europa e a América por meio das atividades maçônicas.


Desse modo, o sentimento nativista não seria suficiente para explicar os anseios dos inconfidentes pela República. Acreditar apenas nisso, segundo os escritores da maçonaria, seria “ingenuidade e romantismo”. Os conspiradores mineiros agiriam inspirados não só pela idéia de nação brasileira, mas, principalmente, pelos sentimentos de sua organização. “Mirando-se no exemplo vitorioso da revolução americana guiada por George Washington, Thomas Jefferson, etc., (...) os líderes inconfidentes questionaram o que a metrópole impunha como sendo inquestionável”, escreve o maçom Raymundo Vargas. Eles não teriam planejado uma revolta se não tivessem certeza de que os “irmãos” americanos prestariam auxílio ao restante do continente. O projeto também incluía a Europa, e a França foi o palco escolhido para os contatos que uniriam o Brasil “ao elo dessa corrente universal de liberdade”.

A narrativa maçônica apresenta-se confusa para aqueles que sabem que a instituição foi fundada no Brasil em 1801. A Inconfidência poderia caracterizar-se como um movimento maçônico se ainda não havia lojas no Brasil? De acordo com seus escritores, haveria, sim, centenas de maçons organizados em lojas, mas estas funcionavam clandestinamente, já que a ordem se encontrava proibida pela legislação portuguesa.

O relato que inaugurou a crença em uma Inconfidência de caráter maçônico partiu de Joaquim Felício dos Santos, que, curiosamente, não era maçom. Em sua obra Memórias do distrito diamantino da comarca do Serro Frio (1924), ele escreve que a “Inconfidência de Minas tinha sido dirigida pela maçonaria, Tiradentes e quase todos os conjurados eram pedreiros-livres”. Com base nessa passagem, estudiosos, maçons ou não, começaram a associar automaticamente a Inconfidência à maçonaria. Surgiu a crença de que Tiradentes, que ia muito à Bahia para refazer o sortimento de mercadorias de seu negócio, acabou, numa de suas viagens, tornando-se maçom. Ele seria o responsável pela criação de uma loja maçônica, local onde os conjurados teriam sido iniciados na organização, “introduzida por Tiradentes quando por aqui passava vindo da Bahia para Vila Rica”, escreve Tenório D’Albuquerque.

Prova maior da importância do triângulo como símbolo maçônico teria se dado no momento da execução de Tiradentes, quando o maçom e capitão Luiz Benedito de Castro não distribuiu as tropas em círculo como de costume, e sim formou um triângulo humano em torno do patíbulo. A multidão “não poderia compreender o significado simbólico daquele triângulo, mas Tiradentes, no centro dele, compreendia aquela última e singela homenagem”, descreve Raymundo Vargas.

Finalmente, as narrativas maçônicas encontram explicação também para um instigante mistério: o sumiço da cabeça de Tiradentes. A urna funerária contendo a cabeça do herói da Inconfidência teria sido retirada secretamente às altas horas da noite pelos irmãos maçons remanescentes do movimento. O roubo da cabeça seria, segundo Raymundo Vargas, uma das primeiras afrontas da maçonaria às autoridades repressoras portuguesas, mostrando-lhes que “a luta só começava”. Segundo autores maçons, não teria sido por acaso que, no mesmo local onde a cabeça de Tiradentes fora exposta, o então presidente da província mineira e grão-mestre da maçonaria brasileira em 1874 Joaquim Saldanha Marinho, em 3 de abril de 1867 ergueu uma coluna de pedra em memória do mártir maçom.

Vários outros aspectos da Inconfidência foram trabalhados pelos autores ligados à organização, tais como a personalidade maçônica do Visconde de Barbacena ou as “irrefutáveis” provas da viagem de Tiradentes à Europa para fazer contato com seus irmãos da ordem. Percebe-se que a maçonaria, por meio de seus intelectuais, construiu uma série de argumentos para não deixar dúvida quanto ao papel de destaque dessa instituição no desenrolar de todos os fatos da Conjuração. Recentemente, surgiram alguns trabalhos elaborados por historiadores maçons mais criteriosos que refutam muitas das teses aqui apresentadas. Contudo, estes ainda não foram suficientes para derrubar do imaginário maçônico a figura do herói mineiro.

De fato, existem vestígios de que maçons passaram pelas Minas setecentistas. Analisando os processos inquisitoriais luso-brasileiros de fins do século XVIII e início do XIX, encontram-se denúncias contra mineiros de Vila Rica e do Tijuco, acusados de libertinos, heréticos e maçons. Sabe-se também que muitos estudantes brasileiros em Coimbra e Montpellier iniciaram-se na maçonaria européia e trouxeram seus valores e idéias para o Brasil. Alguns deles, como José Álvares Maciel e Domingos Vidal, ajudaram nos planos dos inconfidentes.

Para além da discussão da veracidade ou não desses relatos acerca da Inconfidência, é interessante perceber de que maneira a elaboração de tal narrativa histórica favorece a instituição dos pedreiros livres. Em diversos momentos, a presença da maçonaria em território brasileiro foi questionada. Com a proclamação da República, por exemplo, a Igreja Católica perdeu o título de religião oficial do Estado e, para tentar reaver sua influência política, reforçou o combate à organização. O catolicismo oficial passou a apresentar a maçonaria como uma sociedade “estranha” à cultura brasileira, vinda de fora, representante do imperialismo e, logo, uma ameaça à soberania nacional. Mais tarde, com esses argumentos, Getúlio Vargas a colocaria na ilegalidade.

Diante de situações como essas, tornou-se fundamental para a maçonaria apresentar-se à sociedade brasileira como uma instituição que, ao contrário do que dizem seus opositores, mostra se presente há tempos em nosso território e em nossa cultura. Assim, a narrativa da Inconfidência como um movimento maçônico pode ser denominada de "tradição inventada”, expressão cunhada por Eric Hobsbawm que indica a criação de um passado com o qual se busca estabelecer uma continuidade. Construir por meio de uma historiografia uma tradição na qual os maçons teriam feito parte do momento fundador da nação brasileira é, sem dúvida, uma maneira de assegurar sua presença no Brasil. Ao associar a imagem de Tiradentes à sua, essa ordem passa a ser lembrada como a defensora dos nobres valores carregados pelo herói nacional. Mais do que uma forma de defesa, a apropriação maçônica da simbologia da Inconfidência lhe dá legitimidade perante a sociedade. Por ora, a estratégia teve êxito na medida em que a insurreição de 1789 e a atuação maçônica encontram-se, ainda hoje, intimamente associadas no imaginário popular.


A BANDEIRA MINEIRA

A origem da bandeira de Minas Gerais é mais uma prova, para os maçons, do envolvimento desta organização na Inconfidência. “Se ainda ao mais incrédulo dos incrédulos restasse um resquício de dúvida quanto à origem maçônica da Inconfidência Mineira, bastaria contemplar-lhe a bandeira”, afirma Tenório D’Albuquerque, em A bandeira maçônica dos inconfidentes. Utilizando como disfarce a idéia da Santíssima Trindade, o triângulo representaria, na verdade, a sagrada trindade da maçonaria: liberdade, igualdade e fraternidade. No interrogatório relatado nos autos da devassa, ao ser perguntado sobre o significado da bandeira, Tiradentes teria respondido “sagrada trindade” e não “santíssima”. Tal detalhe supostamente passou despercebido ao escrivão.
DISCORDÂNCIA ENTRE OS HISTORIADORES
A historiografia acadêmica encontra-se longe de um consenso acerca da participação ou não da maçonaria na Inconfidência. As hipóteses vão desde o papel central dos maçons na elaboração dos planos do levante até a negação total de sua influência na Conjuração.

Augusto de Lima Júnior ressalta o papel da maçonaria ao percebê-la como um importante elemento de ligação e comunicação dos inconfidentes com os grupos de apoio no Rio de Janeiro e na Europa. Em posição oposta está Lúcio José dos Santos, alegando que o fato de não haver nenhum vestígio da ação propriamente maçônica nos autos da devassa seria a maior prova da ausência dessa sociedade na Inconfidência. Também argumenta que, se a maçonaria possuísse prestígio suficiente a ponto de ser a idealizadora do movimento, ela teria tido forças para impedir a condenação de seus membros. Finalmente, a meio-termo entre as duas opiniões encontra-se Márcio Jardim, para quem a atuação maçônica teria sido importante, mas secundária: seu papel seria apenas o de aglutinar pessoas e idéias. O autor observa, ainda, como a maçonaria dos dias atuais se apropria da figura de Tiradentes, o que revelaria um desejo de mostrar poder acima do comum, causando lhe surpresa o fato de “boatos sobreviverem ao tempo e à evidência das provas contrárias”.

A personalidade de Tiradentes

Que Tirandentes não era líder da Inconfidência Mineira e não tinha aquela aparência de Jesus Cristo, já é mais que difundido. As mais recentes publicações sobre a Inconfidência Mineira revelam que o “homem compromissado com idéias revolucionárias e liberais do iluminismo”, era dono de escravos. E não era tão carismático e agradável como se apregoa. Sua fama era de exaltado e mal-humorado, porque não se entendia com as pessoas, era muito nervoso e com certo pendor para a polêmica. Chegou a tentar fazer tráfico de influência, com falsas promessas de trabalho para pessoas que participassem da Inconfidência Mineira.

Tiradentes, um oficial “insubordinado”

Tiradentes era militar do Regimento de Cavalaria Paga, um dos maiores motivos pelo qual é Patrono das Polícias Militares. Seu posto era o de Alferes, o equivalente à Tenente. E, olha que coisa, era um profissional de baixa remuneração, mesmo recebendo mais do que ganha um Tenente da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Tanto que uma carta de Tiradentes reivindicando aumento de salário faz parte do acervo do Museu da PM, que funciona no Batalhão do Bairro Prado, da Polícia Militar de Minas Gerais.

Apesar disso, Tiradentes não era pobre. Ao ser preso acusado de traição, tinha um patrimônio equivalente ao do ouvidor de Vila Rica, Tomás Antônio Gonzaga. É que naquela época o prestígio não era associado à riqueza, mas a títulos de fidalguia.

O Tiradentes “tiro, porrada e bomba”

Como Alferes do Regimento de Cavalaria Paga, Tiradentes desmantelou à quadrilha da Mantiqueira, um grupo de assaltantes que aterrorizava os caminhos das Minas no início da década de 1780. Quatro anos depois foi denunciado pelo padre Domingos Vidal de Barbosa Lage – que veio a se tornar seu colega de Inconfidência – por uso de violência, tirania e arbitrariedade contra um sacerdote moribundo e seu irmão.

Tiradentes pediu para sair

Insatisfeito por não conseguir promoção na carreira, e por ter perdido a função de comandante da patrulha do Caminho Novo, e ainda inconformado com o baixo salário, Tiradentes abandonou a carreira militar para se dedicar a carreira de empreendedor de obras e dono de moinho.

quinta-feira, 31 de março de 2011


Zona de guerra
Durante a Segunda Guerra Mundial, o território líbio foi cenário de combates decisivos. Entre 1940 e 1943 houve a campanha da Líbia entre o Afrikakorps do general alemão Rommel e as tropas inglesas. Findas as hostilidades, o Reino Unido encarregou-se do governo da Cirenaica e da Tripolitânia, e a França passou a administrar Fezã.

Essa nações mantiveram a Líbia sob forte governo militar até que a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a independência do país no primeiro dia de 1952, data a partir da qual foi adotado o nome Reino Unido da Líbia.

O líder religioso dos sanusis, o emir Sayyid Idris al-Sanusi, foi coroado rei com o nome de Idris I (1951-1969). Depois de sua admissão na Liga Árabe, em 1953, a Líbia firmou acordos para a implantação de bases estrangeiras em seu território. Em 1954, houve a concessão de bases militares e aéreas aos norte-americanos. A influência econômica dos Estados Unidos e do Reino Unido, autorizados a manter tropas no país, tornou-se cada vez mais poderosa.

A descoberta de jazidas de petróleo em 1959 constituiu no entanto fator decisivo para que o governo líbio exigisse a retirada das forças estrangeiras, o que provocou graves conflitos políticos com aquelas duas potências e com o Egito.Em 1961 tem início a exploração do petróleo.

A nova história da Líbia começou em 1969, quando um grupo de oficiais radicais islâmicos derrubou a monarquia e criou a Jamairia (República) Árabe Popular e Socialista da Líbia, muçulmana militarizada e de organização socialista. O Conselho da Revolução (órgão governamental do novo regime) era presidido pelo coronel Muammar al-Khadafi. O regime de Muammar Khadafi, chefe de Estado a partir de 1970, expulsou os efetivos militares estrangeiros e decretou a nacionalização das empresas, dos bancos e dos recursos petrolíferos do país.

Khadafi procurou desencadear uma revolução cultural, social e econômica que provocou graves tensões políticas com os Estados Unidos, Reino Unido e países árabes moderados.

A rejeição a Israel, as manifestações anti-americanas e a aproximação com a União Soviética, por parte da Líbia, geraram sérios conflitos na década de 1980.

A Revolta na Líbia

A revolta na Líbia teve início em fevereiro, quando rebeldes conseguiram estabelecer governo no leste e conquistar cidades no oeste.

Mas, há duas semanas, o ditador líbio logrou reverter a situação e impor sucessivos recuos aos rebeldes, até chegar às portas de Benghazi.

Cerca de 14 mil pessoas cruzaram a fronteira para a Tunísia em apenas um dia. Faltam comida, água potável e abrigo.

A Líbia foi alvo de ataques das forças da França, Estados Unidos e Reino Unido, que tiveram como alvo as forças do ditador Muamar Kadafi em Benghazi, reduto rebelde no leste, e mais de 20 alvos do sistema integrado de defesa aérea no oeste.

Os ataques foram a primeira fase da operação Odisseia do Amanhecer, criada para proteger os civis líbios e impor uma zona de restrição aérea na Líbia, aprovada na última quinta-feira pelo Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas).

O governo líbio, contudo, denunciou o ataque das forças internacionais contra os civis.

Liga Árabe apoiava a imposição de uma zona de exclusão aérea “para proteger os civis líbios e evitar qualquer medida adicional”. O apoio dos países árabes da região é considerado crucial para a missão, realizada pelas forças do Ocidente.

Além disso, ele destacou que algumas consultas vêm sendo feitas para a realização de uma reunião urgente da Liga Árabe sobre a situação em toda a região, especialmente na Líbia.

A ofensiva marca o início da maior operação militar do Ocidente no mundo árabe desde a invasão do Iraque, em 2003. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, anunciou que 20 aviões franceses entraram no espaço aéreo líbio numa tentativa de intimidar o ditador Muamar Kadafi e “impedir ataques aéreos contra a população em Benghazi”, cidade ao leste do país.

As tropas de Kadafi circulavam no que parecia ser uma tentativa de se preparar para a intervenção militar do Ocidente. O ditador líbio continuou a avançar contra seus opositores, afrontando a resolução da ONU que ordenava a paralisação dos ataques contra civis.

“É uma decisão grave que tivemos de tomar”, disse Sarkozy depois da reunião com outros líderes. Ainda de acordo com Sarkozy, a ação militar pode ser interrompida a qualquer momento se Kadafi parar os ataques contra os rebeldes da Líbia.

“Os riscos de atacar não são maiores que os riscos de não fazer nada. O coronel Kadafi criou essa situação”, disse o primeiro-ministro David Cameron. “Ele mentiu para a comunidade internacional, prometeu um cessar-fogo e não respeitou o cessar-fogo. Não podemos permitir que o massacre de civis continue.”

Os ataques contra civis na Líbia começaram há cerca de um mês, após protestos irromperem na cidade de Benghazi. Nos primeiros dias, as tropas do ditador líbio perderam terreno e seu governo chegou a ser ameaçado. Mas com o suporte de uma tropa formada por mercenários, ele retomou o controle sobre quase todo o território do país. Na quinta-feira, Kadafi chegou a propor um cessar-fogo e não cumpriu a promessa, irritando os líderes europeus.

Evolução da crise

Veja como o ditador Muamar Kadafi resistiu à oposição e levou a ONU a impor ações militares:

15 fev – Primeiros protestos ocorrem na cidade de Benghazi e são abafados pela polícia. Levante popular veio na esteira de revoltas em outros países do mundo árabe, como Egito e Tunísia.

17 fev – Protestos crescem e opositores provocam um “dia de fúria” em Benghazi. Forças do ditador Muamar Kadafi matam 13 pessoas.

23 fev – Oposição ao ditador toma cidades ao leste da capital Trípoli. Campos de petróleo também são ocupados pelos revoltosos. Queda de Kadafi parece iminente.

24 fev – Kadafi lança contra-ataque a opositores com apoio de um exército de mercenários.

25 fev – Estados Unidos e União Europeia ameaçam impor sanções ao país.

27 fev – O Conselho de Segurança da ONU emite um embargo à Líbia. Ocidente hesita em impor restrição aérea.

10 mar – O governo da França reconheceu a legitimidade do Conselho Nacional da Líbia, formado pelos opositores a Kadafi. Forças de Kadafi retomam a cidade de Ras Lanuf, importante porto exportador de petróleo.

12 mar – Rebeldes continuam perdendo terreno para as tropas de Kadafi, que se aproximam de Benghazi.

17 mar – Conselho de Segurança do ONU autoriza seus membros a tomar as medidas necessárias para proteger os civis. A zona de restrição aérea é imposta.

18 mar – Kadafi anuncia cessar-fogo, mas suas tropas continuam a avançar, encurralando os opositores em Benghazi.

19 mar – Jatos franceses sobrevoam a Líbia para evitar ataques aos opositores.

Os protestos no mundo árabe

A revolução democrática árabe é considerada a primeira grande onda de protestos laicistas e democráticos do mundo árabe no século XXI. Os protestos, de índole social e, no caso de Túnis, apoiada pelo exército, foram causados por condições de vida duras promovidas pelo desemprego, ao que se aderem os regimes corruptos e autoritários.Estas revoluções não puderam ocorrer antes, pois, até a Guerra Fria, os países árabes submetiam seus interesses nacionais aos do capitalismo estadunidense e do comunismo russo.

Os protestos no mundo árabe são uma série de grandes manifestações e protestos em países do Norte da África e do Oriente Médio, que compõe o chamado "Mundo Árabe". Os protestos ocorrem na Tunísia, Egito, Iêmen, Barein, Argélia, Líbia e Jordânia, com pequenos incidentes ocorridos na Mauritânia, Arábia Saudita, Omã e Sudão.As manifestações populares começaram em 18 de dezembro de 2010 com o levante na Tunísia, que foi seguido por protestos no Egito, na Argélia, na Líbia, no Iêmen e Jordânia.

A Revolução de Jasmim é uma sucessão de manifestações insurrecionais ocorrida na Tunísia entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011 que levou à saída do presidente da República, Zine el-Abidine Ben Ali, que ocupava o cargo desde 1987.

As manifestações começaram logo depois do suicídio de Mohamed Bouazizi, de 26 anos, vendedor ambulante de frutas e verduras, em Sidi Bouzid. Sem conseguir uma licença para trabalhar na rua, Mohamed fora, por anos, assediado pelas autoridades tunisianas: impossibilitado de continuar pagando propinas aos fiscais, acabou por ter sua mercadoria e sua balança confiscadas. Desesperado, o rapaz ateou fogo ao próprio corpo.

A tragédia pessoal de Mohamed desencadeou os protestos que acabaram por provocar uma onda revolucionária que envolveu toda a Tunísia e espalhou-se pelo Mundo Árabe, do Norte da África ao Oriente Médio, atingindo países que, durante décadas, viveram sob ditaduras, muitas das quais apoiadas pelo Ocidente, embora acusadas de violações constantes dos direitos humanos e de impor severas restrições da liberdade de expressão.

Além disso, as populações desses países têm convivido com altos índices de desemprego e pobreza, apesar de as elites dirigentes acumularem fortunas.

Egito

Mais tarde, a atenção do mundo focou-se no Egito, onde ocorreram protestos maciços desde 25 de janeiro de 2011.

Após quatro dias de protestos, o presidente Hosni Mubarak, no poder a 30 anos, propôs reformas, mas ainda não renunciava, o que levou a mais protestos que continuaram por 18 dias, com a pressão internacional e a pressão interna, Mubarak desiste e cede o Governo à SFME - Suprema Força Militar Egípcia. Os protestos no Egito ganharam bastante atenção e preocupação de todo o mundo, o motivo era uma aliança que existia entre Mubarak e o Ocidente, visto que Mubarak era um importante aliado na Guerra ao Terror. Além disso, devido às semelhanças político-econômicas e culturais, o movimento foi de grande influência nos outros países árabes a iniciarem uma guinada democrática.

Iêmen

Acuado pelas maiores manifestações antirregime desde que as revoltas no mundo árabe chegaram ao Iêmen, o ditador Ali Ab­­dullah Saleh se voltou ontem contra os Estados Unidos, acusando o aliado de instigar protestos ao lado de Israel.

“Vou revelar um segredo. Há um centro de operações em Israel com objetivo de desestabilizar o mundo árabe, e ele é dirigido pela Casa Branca’’, disse Saleh.

Saleh, que está sob pressão de dezenas de milhares de cidadãos que sairam às ruas para exigir sua saída após 32 anos no poder, havia aceitado dialogar sobre as negociações com a oposição. "Poderia deixar o poder..., inclusive dentro de algumas horas, sob a condição de manter o respeito e o prestígio"

A nação sofre há dias uma onda de protestos contra o presidente que se recusa a renunciar, o ministro das Relações Exteriores do Iêmen sinalizou que um possível acordo para a saída de Ali Abdullah Saleh e para a transição de poder no país.

Protestos se espalham pela Síria e governo responde com violência

Manifestantes pró e contra governo entram em choque em Damasco, e testemunhas dizem que forças atiram em Deraa, Latakia e Sanamein.

O presidente da Síria, Bashar al-Assad, afirmou que vai derrotar o que chamou de "complô" contra seu país. Em discurso ao Parlamento, o primeiro desde o início dos protestos contra seu governo que começaram há quase duas semanas, Al-Assad frustrou as expectativas ao não anunciar reformas políticas ou o fim do estado de emergência no país, que vigora há 50 anos.

"A Síria é alvo de um grande complô vindo de fora", disse ele, acrescentado que os manifestantes foram "ludibriados" para sair às ruas. Ele também acusou emissoras de televisão via satélite e outros meios de comunicação de "fabricarem mentiras".

A crise começou quando moradores de Deraa protestaram contra a detenção de 15 crianças por terem escrito frases contra o governo em um muro, violentos confrontos
aconteceram depois que as forças de segurança ameaçaram invadir uma mesquita. A justificativa era a de que a mesquita estava sendo usada por gangues para estocar arma e transformar crianças em escudos humanos.

Centenas de pessoas se reuniram no local para impedir a invasão. Há relatos de que as forças de segurança dispararam indiscriminadamente contra a multidão, o que governo nega. O regime tem atribuído os atos de violência a "desordeiros" que desejam espalhar o pânico entre a população e prometeu investigar as mortes.

Protestos na Jordânia A polícia usou canhões d'águia para dispersar grupos durante protestos contra o governo na capital da Jordânia, Amã.

O protesto foi organizado no site Facebook e reuniu estudantes, grupos de esquerda e membros da oposição islâmica.

Os manifestantes pedem a saída do primeiro-ministro, Marouf Al-Bakhit, afirmando que o ritmo das reformas políticas no país é lento demais.

Eles defendem que o premiê seja eleito diretamente e que o Parlamento receba maiores poderes.

O rei Abdullah nomeou Bakhit no mês passado, após grandes protestos populares.

Em carta publicada em jornais do país na quarta-feira, o rei Abdullah pediu para que o premiê Bakhit introduza reformas parlamentares que o monarca propôs em fevereiro, após o primeiro-ministro anterior ter sido demitido.

Na época, a população realizou protestos pacíficos pedindo reformas políticas para combater os altos índices de desemprego e a inflação.


Bahrein impõe toque de recolher após protesto com mortes

Policiais tentaram dispersar manifestação com bombas gás de gás lacrimogênio, canhões de água, tanques e helicópteros.

O protesto foi realizado por manifestantes antigoverno que estavam acampados no local há duas semanas.

Os manifestantes, em sua maioria muçulmanos xiitas, vêm pedindo reformas políticas e igualdade de direitos em relação à elite política do país, formada por islâmicos sunitas.

Os monarcas sunitas do Bahrein declararam estado de emergência e recorreram a cerca de mil soldados vindos da vizinha Arábia Saudita, também governada por uma monarquia sunita.

Os ativistas também protestaram contra a presença de soldados sauditas no país, que consideram uma ingerência indevida de um país estrangeiro em assuntos do Bahrein e se reuniram em frente à embaixada da Arábia Saudita.

Aumentam protestos no Kuwait por mudança de primeiro-ministro

Manifestantes pedem maior liberdade política e fim da corrupção.

Centenas de kuwaitianos protestaram exigindo a queda do primeiro-ministro e maior liberdade política no país do Golfo Pérsico, o quarto maior exportador mundial de petróleo. Os manifestantes se reuniram em um estacionamento chamado por eles de "Praça da Mudança", em frente a um edifício do governo, e pediam que o xeque Nasser al-Mohammad al-Sabah renunciasse.

Os participantes do protesto gritavam em árabe "O povo quer que a corrupção vá embora" e "Vá, vá Nasser", em frente a uma grande faixa com os dizeres "Um novo governo com um novo primeiro-ministro, com uma nova abordagem".
Além da substituição de Nasser, alguns organizadores do protesto exigem a indicação de um político que não seja da família de al-Sabah, que vem governando o Kuwait há cerca de 250 anos.

O primeiro-ministro, sobrinho do governante, já sobreviveu a duas moções de não-cooperação no Parlamento desde que foi indicado pelo emir em 2006. Todas as outras pastas importantes, como Defesa, Interior e Relações Exteriores, também são comandadas pelos al-Sabahs. O emir tem a palavra final sobre todas as questões políticas.

Sultão de Omã anuncia ampla reforma ministerial

Protestos continuam apesar da saída de ministros e do anúncio da criação de 50 mil postos de trabalho.

O sultão Qaboos de Omã, que enfrenta manifestações diárias, decidiu reestruturar amplamente o governo, conforme anunciou a televisão estatal. A medida foi divulgada no momento em que manifestantes denunciam a corrupção dos ministros de Omã.

"O sultão de Omã ordenou a reestruturação do Conselho de Ministros", anunciou a emissora estatal. O sultão Qaboos, de 70 anos, no poder desde 1970, demitiu no sábado dois ministros.

Os omanis, que exigem medidas de luta contra a corrupção, voltaram a protestar nesta segunda-feira, apesar da destituição dos dois ministros e das promessas de criação de empregos.

Além dos pedidos de combate à corrupção, funcionários da Oman Air iniciaram um protesto diante da sede da companhia aérea nacional, exigindo aumentos de salários e promoções. No sábado, em resposta às exigências dos manifestantes, o sultão Qaboos destituiu dos ministros e anunciou a saída de outros membros do governo.

Arábia Saudita detém 22 manifestantes xiitas

Manifestantes protestaram por considerarem ser discriminados; no sábado, governo advertiu que usará a força contra manifestações.

Xiitas sauditas têm realizado pequenos protestos nas últimas duas semanas no leste do país, região que detém boa parte dos campos de petróleo do maior exportador do mundo. Um ativista xiita, confirmou apenas 22 prisões.
"As forças de segurança estão autorizadas legalmente a adotar as medidas requeridas contra todo aquele que tentar alterar ou infringir o sistema de qualquer maneira", disse El Turki na nota, divulgada pela agência estatal "SPA".

A advertência foi feita cinco dias antes da realização de um "Dia da Fúria", convocado por centenas que aderiram a uma campanha no Facebook. Os organizados querem eleições, liberdade para as mulheres e libertação de presos políticos.

Apesar da sua riqueza petrolífera, a Arábia Saudita enfrenta um índice desemprego que chegou a 10,5% em 2009. O reino oferece benefícios sociais a seus 18 milhões de cidadãos, mas estes são considerados menos generosos que os de outros países petrolíferos do golfo Pérsico.

Palestinos protestam contra divisão de governo

Ao menos 3 mil jovens saíram às ruas para pedir unificação entre autoridades do Fatah e do Hamas.

Ao menos 3 mil jovens militantes pediram o fim das divisões entre palestinos nesta segunda-feira no centro de Gaza, na véspera do dia de marchas "unitárias" previstas para terça-feira nos territórios palestinos.

A multidão percorreu as ruas da cidade, agitando bandeiras palestinas e bradando "O povo quer o fim da divisão", em referência ao antagonismo entre o Hamas, que controla a Faixa de Gaza, e o Fatah do presidente Mahmud Abbas, que tem como sede a Cisjordânia.

Vários grupos convocaram recentemente grandes manifestações pela "unidade" no dia 15 de março em Gaza, na Cisjordânia e nos campos de refugiados palestinos no exterior. Mais cedo nesta segunda, o líder do governo Hamas, Ismail Haniyeh, ordenou ao Ministério do Interior em Gaza que não impeça a passeata, segundo um comunicado de seu gabinete.

Inspirados pelas manifestações populares no Egito, jovens palestinos fizeram nas últimas semanas apelos por "mudanças" e pela unidade política das facções palestinas por meio das redes sociais Facebook e Twitter .


sexta-feira, 25 de março de 2011


O número de mortos em consequência do terremoto e do posterior tsunami do dia 11 no Japão foi atualizado nesta sexta-feira, 25, para 10.035, enquanto o de desaparecidos subiu a 17.443, de acordo com o último boletim da polícia japonesa.

Duas semanas depois do terremoto de 9 graus no litoral nordeste do Japão, o pior desastre natural no país após a Segunda Guerra Mundial, 250 mil pessoas que foram evacuadas de seus lares permanecem em 1.900 abrigos temporários disponibilizados pelo governo.

Cerca de 90% dos terremotos no mundo ocorrem na região conhecida como Cinturão de Fogo do Pacífico: uma área de intensa atividade sísmica e vulcânica que inclui o oeste do continente americano e o leste da Ásia, onde está o Japão.

Ainda não há consenso entre os especialistas sobre as causas da concentração dos tremores nessa região, mas todos concordam que a explicação tem a ver com o comportamento da placa tectônica do Pacífico.

Essas placas são grandes porções de crosta que flutuam sobre o manto da Terra, camada mais plástica de material quente.

Elas movem-se continuamente, aproximando-se ou distanciando-se umas das outras. Tais choques e repulsões provocam terremotos e erupções vulcânicas.

O Círculo de Fogo do Pacífico (ou Anel de Fogo) é uma área formada no fundo do oceano por uma grande série de arcos vulcânicos e fossas oceânicas, coincidindo com as extremidades de uma das maiores placas tectônicas do planeta.

A região, de cerca de 40 mil km de extensão, tem formato de ferradura e circunda a bacia do Pacífico, abrangendo toda a costa do continente americano, além do Japão, Filipinas, Indonésia, Nova Zelândia e ilhas do Pacífico Sul.

Esta é a área de maior atividade sísmica do mundo. Somente o Japão responde por cerca de 20% dos tremores de magnitude igual ou superior a 6 registrados na Terra. Em média, os sismógrafos captam algum tipo de abalo no Círculo de Fogo a cada cinco minutos.

Além disso, mais da metade dos vulcões ativos no mundo, acima do nível do mar, estão localizados nesta área.

Alguns dos piores desastres naturais já registrados ocorreram em países localizados no Círculo de Fogo. Um deles foi o tsunami de dezembro de 2004, que matou 230 mil pessoas em 14 países no Oceano Índico, após um tremor de magnitude 9,1.

Placas tectônicas

A maior parte do Oceano Pacífico está situada sobre uma placa homônima. As placas vizinhas a pressionam por todos os lados. Como a Placa do Pacífico suporta uma massa maior – todo o volume do oceano, de tempos em tempos, as demais placas sobem sobre ela . A energia acumulada pela tensão entre as placas é liberada sob a forma de abalos sísmicos.

Nos anos 1960, cientistas desenvolveram a noção de placas tectônicas, o que explica as localizações dos vulcões e outros eventos geológicos de grande escala.

De acordo com a teoria, a superfície da Terra é feita de uma "colcha de retalhos" de enormes placas rígidas, com espessura de 80 km, que flutuam devagar por cima do âmago quente e líquido do planeta.

As placas mudam de tamanho e posição ao longo do tempo, movendo entre um e dez centímetros por ano - velocidade equivalente ao crescimento das unhas humanas.

O fundo do oceano está sendo constantemente modificado, com a criação de novas crostas feitas da lava expelida do centro da Terra e que se solidifica no contato com a água fria. Assim, as placas tectônicas se movem, gerando intensa atividade geológica em suas extremidades.

Três coisas podem ocorrer com as placas: elas podem se afastar umas das outras, deixando espaço para criar mais "chão" no fundo do mar; podem se aproximar, fazendo uma encobrir a outra; ou podem "roçar" umas nas outras, sem causar muito distúrbio.

Essas placas que se "roçam" causam tremores de menor intensidade, como ocorre geralmente na Falha de San Andreas, localizada na região de San Francisco (Estados Unidos). Essas falhas também podem criar escarpas ou falésias no fundo do mar.

No entanto, quando uma placa se move e é forçada para dentro da Terra, ela encontra altas temperaturas e pressões que são capazes de parcialmente derreter a rocha sólida, formando o magma que é expelido pelos vulcões.

O terremoto no Japão liberou uma quantidade de energia equivalente a 27 mil bombas atômicas iguais a que devastou Hiroshima, em 1945. “Parte dessa energia foi transformada em calor (no fundo do mar) e o resto provocou o abalo sísmico”, explica George Sand, do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB).

O tsunami provocado pelo maior terremoto da história do Japão varreu a costa nordeste do país e arrastou pessoas, carros, barcos e edifícios. Localizada 370 km ao sul, Tóquio também sentiu os efeitos do tremor de 8,9 graus na escala Richter. Os sistemas de transporte e telefonia celular foram comprometidos e vários aeroportos fecharam.

Milhões de japoneses ficaram sem energia elétrica e o governo teve de emitir um alerta de "emergência nuclear" em razão de avarias no reator de uma das maiores usinas atômicas do mundo.

O tremor foi sentido numa extensão de 12,1 mil quilômetros ao longo da costa leste, mas o lugar mais castigado foi Sendai, de 1 milhão de habitantes, onde 300 corpos foram encontrados na praia, segundo relato de agências de notícias japonesas. A agência de notícias Kyodo disse que um navio que carregava 100 pessoas foi levado pelo tsunami.

Ondas de até 10 metros de altura se formaram depois do terremoto, que ocorreu às 14h46, horário local , a 130 quilômetros da costa japonesa. O epicentro estava a uma profundidade de apenas 24 metros, o que aumentou o poder de destruição do tsunami.

Vinte países do Pacífico declararam alertas para tsunami, mas os primeiros relatos da progressão do fenômeno indicavam redução do tamanho das ondas e da violência da água.

"Este terremoto e tsunami, e também a situação que diz respeito à usina nuclear, são talvez a as adversidades mais difíceis que enfrentamos desde a Segunda Guerra Mundial, em 50 anos."

"Se nós, o povo japonês, podemos superar estas adversidades, isto depende de cada um de nós, cidadãos japoneses", disse Kan em um pronunciamento transmitido pela televisão japonesa.

"Acredito que podemos superar este grande terremoto e tsunami se nos unirmos."

Um vulcão situado no sudoeste do Japão voltou a lançar cinzas e pedras a uma altura de 4 mil metros, depois de duas semanas de relativa calma, segundo as autoridades.

O vulcão Shinmoedake, situado na ilha Kyushu, tem 1.420 metros de altura e entrou em atividade em janeiro, pela primeira vez em 52 anos.As autoridades japonesas restringiram o acesso a Shinmoedake, situado nos montes Kirishima, que têm 20 vulcões.
As ilhas japonesas têm origem vulcânica e dezenas de vulcões ativos continuam a entrar em erupção regularmente por todo país. O vulcão começou a expelir cinza e magma no final de janeiro e desde então entrou em erupção 12 vezes, sem causar danos.

As novas erupções ocorrem dois dias após um forte terremoto de 8,9 de magnitude, seguido de um devastador tsunami, ter provocado centenas de mortes e destruição no nordeste do país.

O Shinmoedake está a cerca de mil quilômetros da região afetada pelo terremoto.

Terremoto do Japão pode ter deslocado eixo da Terra

O devastador terremoto do Japão pode ter deslocado em quase dez centímetros o eixo de rotação da Terra, segundo um estudo preliminar do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia (INGV) da Itália.
O INGV, que desde 1999 estudou os diversos fenômenos sísmicos registrados na Itália, como o devastador terremoto da região dos Abruzos de 6 de abril de 2009, explica em uma nota que o impacto do terremoto do Japão sobre o eixo da Terra pode ser o segundo maior de que se tem notícia.

“O impacto deste fato sobre o eixo de rotação foi muito maior que o do grande terremoto de Sumatra de 2004 e provavelmente é o segundo maior, atrás apenas do terremoto do Chile de 1960”, diz o comunicado.
Entre 200 e 300 pessoas morreram na província japonesa de Miyagi (leste) por causa do tsunami provocado pelo terremoto do Japão, mas ainda há 349 desaparecidos em todo o território japo
nês.
Teme-se que o número de mortos aumente, já que há edifícios destruídos em várias regiões.


ACIDENTE NUCLEAR

Mas nossos filhos serão mutantes
Queria tudo como era antes
O sol nunca mais vai brilhar
Aqui dentro do abrigo nuclear


Como se não bastasse a tragédia imposta pelo terremoto e posterior tsunami, o Japão agora luta para que os problemas em suas usinas nucleares tenham uma solução e que o resultado não seja mais catastrófico.
A crise nuclear japonesa já corresponde ao segundo maior nível na escala internacional de acidentes atômicos. De acordo com informações da agência de notícias japonesa Kyodo, a avaliação foi feita pela Agência Nuclear da França.

Dentro da Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiológicos, conhecida pela sigla Ines, os acidentes são classificados entre um e sete. A emergência japonesa está no nível seis - inferior, por exemplo, ao do desastre de Three Mile Island, nos EUA, em 1979.

Conforme a escala, os eventos da categoria um são descritos como uma "anomalia", e os da categoria sete, como um "grande acidente". O nível seis corresponde a um "sério acidente". Em toda a história, só a tragédia de Chernobyl, em 1986, chegou ao nível sete. A explosão numa usina em Kyshtym, na Rússia, em 1957, foi o único caso de evento de categoria seis, como o que ocorre agora no Japão. O desastre russo provocou enorme contaminação radioativa, provocando câncer nos moradores.

A crise nuclear japonesa agravou-se com o anúncio de que o depósito de combustível atômico do reator 3 do complexo de Fukushima apresenta rachaduras. Um problema semelhante foi descoberto no terminal 2. A Tokyo Eletric Power Co. (Tepco), responsável pela usina, disse que o resfriamento do reator 3, movido a plutônio, é a "prioridade" para evitar um desastre de proporções maiores.

De acordo com o chefe de gabinete do governo japonês, Yukio Edano, a ruptura pode ter causado a nuvem de fumaça branca vista sobre o complexo no começo do dia (noite de terça no Brasil). Os níveis de radiação subiram e os 50 trabalhadores que lutam para resfriar os reatores foram retirados da usina. No final da noite, a contaminação caiu e os técnicos - agora 180 deles - voltaram ao complexo. Helicópteros foram utilizados para tentar resfriar os reatores, mas a tentativa fracassou. As equipes recorreram então a canhões d'água.

O governo do Japão disse que os níveis de radiação fora do terreno da usina permanecem estáveis, mas, em um sinal de estar sobrecarregado, apelou às empresas privadas para ajudarem a entregar suprimentos às dezenas de milhares de pessoas que foram retiradas do entorno do complexo. "As pessoas não estariam em perigo imediato se saíssem de casa com esses níveis. Quero que as pessoas entendam isso", disse Edano.

Desde o terremoto de magnitude 9 que atingiu o país na última sexta-feira, três dos seis terminais do complexo de Fukushima sofreram explosões, um pegou fogo e outros dois têm temperaturas acima do normal. Ao menos 70% das barras de combustíveis do reator 1 foram danificadas com o colapso do sistema de resfriamento causado pelo terremoto, enquanto no reator 2, o dano ficou em 33% das barras.

Houve também repetidos vazamentos de radiação no ambiente. Foi decretada uma área de segurança de um radio de 20 quilômetros a partir da usina devido aos vazamentos de material radioativo, o que forçou a evacuação de mais de 200 mil pessoas que viviam na região. Além disso, outras 140 mil pessoas estão em um raio de 30 quilômetros do complexo.

Em Tóquio, a radiação está 20 vezes acima do normal, mas ainda não representa risco à saúde, segundo o governo japonês.

Quase 70 anos atrás, o EUA cometeu uma atrocidade e jogou uma bomba nuclear no Japão.
Hoje, estão ajudando os japoneses a conter um vazamento nuclear.

terça-feira, 1 de março de 2011



Dia sem Carro

A complexidade da equação que envolve trânsito emissões veiculares mobilidade nas grandes cidades do mundo exige respostas urgentes. Um simples dia de reflexão não resolve todos os problemas, mas ajuda numa análise séria da questão da mobilidade e até mesmo para experimentar outras possibilidades de deslocamento sem usar o carro.

Em todo o mundo, grandes cidades como São Paulo, Nova York, México, entre outras, registram altos índices de poluição e também ocorrência de gases de efeito estufa, em parte por causa das emissões veiculares. Na cidade de São Paulo, por exemplo, 90% da emissão de gases de efeito estufa são provenientes dos automóveis, segundo o Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa da Cidade de São Paulo, realizado pela Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Dados do Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP indicam ainda que em São Paulo se vive cerca de dois anos menos do que em cidades com o ar menos poluído.

Tudo isso serve para apontar dois pontos fundamentais: a urgência de encontrar saídas para o trânsito na cidade e a dificuldade em resolver esses problemas numa estrutura que sempre privilegiou o carro e coloca por dia cerca de 500 novos veículos nas ruas, sejam eles novos em folha ou de segunda mão.


125 anos do Automóvel


Tudo começou num dia 29 de janeiro. Foi há 125 anos, que o alemão Carl Benz deu início a uma revolução que se alastraria não só pela Europa, mas por todo o planeta.

Nesse dia, o engenheiro registrou a patente n.º 37.435 do seu "veículo impulsionado por motor a gasolina" num escritório de patentes em Berlim, marcando o nascimento do automóvel.

Porém, é importante deixar claro que a data se refere a veículos dotados de motor a combustão interna. Modelos equipados com propulsores a vapor (com uma caldeira) existiam desde o século 17.

Apesar da produção em série dos primeiros automóveis ter sido iniciada em 1888, eles demoraram a se tornarem populares. Esse processo só começou no início do século 20 nos Estados Unidos, com a extinta Oldsmobile.

E se tornou realidade graças a Henry Ford, que, em 1914, implantou a linha de produção do famoso Modelo T. O advento da produção em escala permitiu que cada carro deixasse a fábrica num período oito vezes menor que o dos concorrentes.

No início dos anos 1930, a Alemanha estava às voltas com uma grande crise, e uma das soluções apontadas para superá-la era a criação de um carro popular. Surgiram, então, os primeiros projetos de um "carro do povo" (Volkswagen, em alemão).

Depois de muitas tentativas e diversos protótipos, nasceu, em 1937, o Fusca, então batizado de KdF (Kraft durch Freude, ou Força pela Alegria) Wagen. O inicio da Segunda Guerra Mundial, entretanto, fez com que a Alemanha direcionasse todos os investimentos - e fábricas - para a produção bélica.

Mas o projeto do "carro do povo" era tão bom que superou as dificuldades e, após o fim do conflito, não demorou a ganhar as ruas de todo o mundo. Como o momento era de reconstrução e as pessoas necessitavam de um meio de locomoção barato, simples e confiável, o Besouro veio bem a calhar.

sábado, 26 de fevereiro de 2011


Terra está vivendo nova era geológica

A Terra está vivendo uma nova era geológica, a antropocênica. O neologismo foi proposto por Paul Crutzen, químico holandês premiado com o Nobel de sua disciplina em 1995, para descrever o impacto cada vez mais intenso da humanidade sobre a biosfera.

De acordo com ele, essa era se iniciou por volta de 1800, com a chegada da sociedade industrial, caracterizada pela utilização maciça de hidrocarbonetos. Desde então, não pára de crescer a concentração de dióxido de carbono na atmosfera, causada pela combustão desses produtos. A acumulação dos gases do efeito-estufa contribui para o aquecimento global.

Na edição de dezembro da revista Ambio, Crutzen detalha os marcos que caracterizam a chegada da era antropocênica. Com Will Steffen, especialista em meio ambiente da Universidade Nacional australiana, em Canberra, e John McNeill, professor de história na Escola de Serviço Diplomático de Washington, ele publicou um artigo intitulado: "Era Antropocênica: será que os seres humanos submergirão as grandes forças da natureza?"

Depois de ter modificado seu ambiente de maneira jamais vista no passado, ao longo dos últimos 50, de perturbar a maquinaria do clima e prejudicar o equilíbrio da biosfera, a espécie humana se tornou "uma força geofísica de alcance planetário", e é preciso agir com grande rapidez para evitar que os desgastes que ela causa continuem. Mas seremos capazes de superar esse desafio? É essa a questão proposta pelos três pesquisadores.

De acordo com eles, vivemos hoje a fase 2 da era antropocênica (1945-2015), que eles designam como "grande aceleração", porque os efeitos das atividades humanas exageradas sobre a natureza passaram por aceleração considerável no período. "A grande aceleração se encontra em estado crítico", eles escrevem, porque 60% dos serviços fornecidos pelos ecossistemas terrestres já enfrentam degradação. "Um ponto positivo é que, entre 1980 e 2000, os seres humanos tomaram progressivamente consciência sobre os perigos que sua atividade cada vez ais intensa gerava para o 'sistema Terra'".

A humanidade terá três escolhas, para a terceira fase da era antropocênica (que se inicia em 2015): A primeira consiste em manter as mesmas atitudes e esperar que a economia de mercado e o espírito humano de adaptação cuidem dos problemas ambientais. A escolha oferece "riscos consideráveis", segundo os autores, porque quando forem decididas medidas adequadas de combate aos problemas pode ser "tarde demais".

A segunda opção, a de atenuação, tem por objetivo reduzir consideravelmente a influência humana sobre o planeta, por meio de uma melhor gestão ambiental, com novas tecnologias, uso mais sábio de recursos e restauração de áreas degradadas, mas requereria "importantes mudanças no comportamento dos indivíduos e nos valores sociais".

Caso isso não se prove possível, resta sempre a terceira opção: o uso de geo-engenharia para alterar o clima e combater o aquecimento global. A opção envolveria manipulações bastante poderosas do meio ambiente em escala mundial, com o objetivo de contrabalançar as atividades humanas. Por exemplo, já existem planos para reter o gás carbônico em reservatórios subterrâneos, ou espalhar na atmosfera partículas que reflitam a luz solar, refrigerando a temperaturas. Mas isso exigiria cuidado para não criar uma nova era glacial, a qual teria de ser combatida por meio da promoção de novas medidas de aquecimento global.

Conclusão: "O remédio pode ser pior que a doença".


Uma era geológica é a divisão de um éon na escala de tempo geológico. As eras geológicas podem ser subdivididas em períodos. As eras são caracterizadas pela formas em que os continentes e os oceanos se distribuíam e os seus viventes que neles se encontravam.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011


A superlotação da Terra e a dramática escassez de recursos naturais


"Como a população continua a crescer para sete, oito ou nove bilhões haverá muito mais guerras por alimentos"

Antes que você acabe de ler esta frase, terão nascido no mundo quarenta bebês, enquanto vinte de nós terão deixado o plano material para prestar contas a Deus. O saldo é a chegada, a cada dez segundos, de vinte novos moradores da Terra, prontos para crescer, estudar, trabalhar, namorar, casar e ter filhos. Há doze anos, em 1999, o planeta estava na confortável situação de receber cada novo morador com comida e água na quantidade necessária para que ele conseguisse atingir seus sublimes objetivos na vida. De lá para cá, começou a se delinear um novo e desafiador cenário para a espécie humana. A demanda por comida e outros bens naturais passou a crescer mais rapidamente do que a oferta.

Assessores científicos têm como missão chegar a um acordo mundial para conter o ritmo do aquecimento global. Esse fenômeno é normalmente benéfico, mas saiu de controle, aparentemente como resultado da atividade industrial humana, e agora pode desarranjar o clima da Terra a ponto de ameaçar a sobrevivência de inúmeras espécies e impor um modo de vida mais áspero e severo à própria humanidade.

Por razões metodológicas e ideológicas, e também para não ampliar em demasia a pauta das discussões, dificultando ainda mais um acordo final, a questão populacional está em plano secundaríssimo . É estranho que ela tenha sumido dos debates sobre as soluções do aquecimento global, quando se sabe que esteve na base do seu diagnóstico desde o primeiro momento em que o aquecimento global foi visto como um perigo potencial.

Quando o físico sueco Svante Arrhenius concluiu seus cálculos pioneiros sobre o efeito das moléculas de gás carbônico (CO2) no aumento da temperatura média do planeta, em 1896, a Terra era habitada por cerca de 1 bilhão de pessoas. Arrhenius foi o primeiro a perceber que o aumento na concentração de CO2 poderia aquecer demais o planeta. Pouco mais de um século depois do trabalho do sueco, a Terra tem 6,8 bilhões de habitantes e caminha para os 9,2 bilhões por volta de 2050. Serão 2,5 bilhões de pessoas a mais, e, graças ao sucesso da globalização econômica, a maioria delas atingirá um padrão de consumo de classe média. Isso tem um peso extraordinário não apenas na equação do aquecimento global, mas no frágil equilíbrio que a civilização ainda consegue manter em suas relações de rapina com o mundo natural. É enorme o impacto da explosão populacional aliado à emergência social e econômica de imensas massas humanas antes fadadas à miséria. Seus efeitos já se fazem sentir no aumento da demanda de alimentos em ritmo superior ao da oferta.

Se vivo estivesse, o sueco Svante Arrhenius enfatizaria o fator populacional no descontrole aparente em que se encontra o efeito estufa global. A cada dia que passa, o mundo tem de sustentar 213 000 pessoas a mais. Cada ser humano adulto produz, em média, 4,3 toneladas de gás carbônico por ano sem fazer nada de mais - apenas ao acender uma lâmpada, andar de carro ou ônibus, alimentar-se e vestir-se. Esses novos passageiros da espaçonave Terra, em conjunto, passarão a responder, então, por 880 000 toneladas a mais de carbono arremessado na atmosfera. As estimativas de aumento de emissões de gases de efeito estufa contemplam o choque populacional.

O documento final do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU diz com clareza que "o crescimento do produto interno bruto per capita e o da população foram os principais determinantes do aumento das emissões globais durante as últimas três décadas do século XX".

Outro relatório divulgado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) chama a atenção para o equívoco de desprezar o aumento populacional no debate sobre o aquecimento: "Os gases de efeito estufa não estariam se acumulando de modo tão perigoso se o número de habitantes da Terra não aumentasse tão rapidamente, mas permanecesse em 300 milhões de pessoas, a população mundial de 1 000 anos atrás". O intrigante é que, nas ações propostas para os próximos anos, o fator aumento da população desaparece.

O tema é realmente explosivo e tem conotações sombrias, por erros cometidos no passado. Com razão ou não, muitas pessoas encaram qualquer sugestão para conter o ritmo de aumento populacional como uma interferência indevida de forças estranhas no livre-arbítrio de países, famílias e das próprias mães. Razões culturais e socioeconômicas contribuem para tirar qualquer efeito prático das assombrosas constatações do crescimento populacional desenfreado. São dois os motivos principais para isso. O primeiro é que existe uma inegável disparidade no volume de emissões individuais quando se comparam cidadãos de países ricos e pobres. Um americano joga, em média, 19 toneladas de gás carbônico na atmosfera anualmente. Um afegão morador das montanhas de seu belo país contribui com modestíssimos 26 quilos de CO2. Como exigir do montanhês afegão que - quando não foi recrutado pelo Talibã para plantar papoula, matéria-prima do ópio - vive do leite de suas cabras e da hortinha no quintal que refreie seus impulsos reprodutivos usando como argumento o peso que o pobre coitado está colocando sobre o planeta? É ridículo. A maior força moral está em convencer o bem-educado e bem nutrido americano médio a repensar seu modo de vida, optando por uma sobrevivência mais frugal. Vale dizer que, embora as conversões ao naturalismo e à alimentação orgânica se contem aos milhares todos os meses nos Estados Unidos, elas são insignificantes do ponto de vista global.

A segunda razão do encalacramento da questão populacional vem da noção, bastante razoável, diga-se, de que os avanços educacionais e os saltos tecnológicos são muito mais eficientes nesse caso do que qualquer política governamental. O dinamarquês Bjorn Lomborg, estrela no grupo dos cientistas céticos quanto aos efeitos do aquecimento global e à responsabilidade humana nele, está entre os que acreditam que a solução virá do avanço tecnológico.

"Realmente o tema não é tratado. Pela ordem, eu diria que conter o consumo é um pouco mais prioritário, mas, definitivamente, apressar a busca por novas tecnologias limpas é o mais importante de tudo".

O economista carioca Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE, descrê de qualquer política centralizada que vise a determinar ou influenciar os casais a respeito do número de filhos que devem ter. Ele lembra que a elevação do padrão cultural e educacional da população sempre coincide com a diminuição da taxa de fecundidade.

"Quando se torna mais amplo o acesso à educação, à cultura e ao conhecimento, as populações passam a crescer em ritmo menor e até a decrescer", diz.

O caso brasileiro é ilustrativo dessa constatação. Há trinta anos, as mulheres brasileiras apre-sentavam taxas de fecundidade que se contavam entre as maiores do mundo, rivalizando com os padrões africanos. No começo da década de 90, a situação apresentava melhoras, mas ainda era preocupante. As mulheres do Brasil rural tinham então, em média, 4,3 filhos - dois a mais do que as mães urbanas. Uma década mais tarde, a diferença entre o número de filhos de mães rurais e urbanas se reduziu para 1,2. Em 2006, a taxa geral de fecundidade no Brasil havia estacionado em dois filhos por mulher. Um avanço cujo progresso só pode ser explicado pelos fatores apontados por Besserman, uma vez que as campanhas de controle de natalidade há muito foram desativadas no Brasil.

Fenômeno semelhante deve ocorrer na Ásia e na África com as melhorias educacionais e com o aumento da proporção da população urbana em relação à rural. Viver em cidades é um grande fator de diminuição do número de filhos. A ONU calcula que o somatório desses fatores terminará por estabilizar a população do planeta na casa dos 9 bilhões a partir do ano 2050. A questão é como chegar até lá sem grandes traumas. O prognóstico não é bom. Estudos científicos mostram que o mundo natural está sendo testado em seu limite para sustentar os atuais 6,8 bilhões de passageiros da espaçonave Terra. Segundo o OPT, organização inglesa que desenvolveu um indicador confiável de sustentabilidade, nos níveis tecnológicos atuais, o máximo que o planeta comporta sem risco de exaustão são 5,1 bilhões de pessoas. No fim da próxima semana, de Copenhague, virá a sinalização se a humanidade captou o dramático pedido de socorro que a Terra está emitindo.