sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Chavismo

O modelo de governo do presidente venezuelano, Hugo Chávez, está em “declínio terminal”

“Chávez não tem nada de bobo. Ele é muito espaçoso e coloca o pé onde quer. Até gasolina subsidiada para os pobres americanos ele está fornecendo. Ele quer ser um Símon Bolívar, sem entender exatamente qual foi o papel do Bolívar na história. E aí existe essa sua ânsia de se expandir, inclusive militarmente, como vimos recentemente”, diz a socióloga Maria Victor Lucia Barbosa.

“Esse é um governo militarista, autoritário”, dispara o professor aposentado da Universidade Central da Venezuela Carlos Ma­­chado Allison.

“Esses são setores contrarrevolucionários, que querem voltar ao passado”, ataca Iza­­bel Aldano, integrante de movimentos populares.

Mesmo históricos defensores de Chávez, como Heinz Dieterich, o ideólogo do chamado “socialismo do século 21”, passaram a criticar abertamente o governo. “A política do Presidente não tem construído instituição alguma que se possa chamar de socialismo do século 21”, disse Dieterich que completa: “Nada do que se fez na Venezuela é diferente dos mercados na Europa. Os programas sociais são muito positivos, mas nada disto é socialista”

Mas quais são as razões que levam antigos chavistas a criticar e até mesmo romper com o governo? Por que aumenta a desilusão entre os trabalhadores com a “revolução bolivariana”?

No início da crise econômica mundial, Chávez declarou que o “socialismo do século 21 imunizaria o país”. Nada mais longe da verdade. De toda América do Sul, a Venezuela foi o país mais afetado pela crise.

A resposta de Chávez à crise não foi muito diferente das ações realizadas por outros governos mundo a fora, ou seja, de jogar o peso da crise sobre as costas dos trabalhadores. Em janeiro, Chávez anunciou a mega – desvalorização do Bolívar Forte para “combater” a mais alta inflação da América Latina, que registrou quase 26% em 2009, segundo dados oficiais. A desvalorização arrasou ainda mais os salários dos trabalhadores já corroídos pela inflação.

Por outro lado, a medida foi muito bem recebida pelos capitalistas. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a “desvalorização da moeda é um bom passo para Venezuela”. Já o presidente da federação industrial venezuelana disse que “o ajuste cambial protege à maioria do povo venezuelano”.

A razão para esses senhores aplaudirem a desvalorização é simples. A mega – desvalorização imposta por Chávez diminuiu drasticamente os salários pagos aos trabalhadores, o que, portanto, aumentará as taxas de lucros dos empresários

Aos efeitos da crise somam-se os verdadeiros descalabros administrativos praticados na economia e infra-estrutura do país. Rica em petróleo, a Venezuela dependente da importação de quase tudo, até alimentos. A produção de eletricidade, apesar dos imensos rendimentos em petróleo, continua uma verdadeira calamidade. Apesar de ser um dos maiores produtores de energia do planeta, até hoje o fornecimento de eletricidade na Venezuela é interrompido por “apagões”.

Se o “socialismo do século 21” de Chávez não imunizou o país da crise, ele também não impediu o aumento da corrupção e da degradação social.

Como em todo regime fascista, a Venezuela de Hugo Chávez já tem a sua nova classe burguesa.

Ninguém cometeria o atrevimento de dizer que a corrupção começou com Chávez. Porém, nos governos anteriores a pilhagem era objeto de censura social, mesmo que sem sanções exemplares. Agora a questão mudou. O analista Carlos Blanco indica que com o “socialismo do século 21″ a corrupção não é corrupção, “mas o mecanismo por meio do qual a primazia do revolucionário reclama sua ‘ajuda de custo’ dos que têm a sorte de ser contratados pelo Estado”. Não há roubo, mas “redistribuição forçada da propriedade estatal graças à intermediação de empreiteiras que devem lavar seus pecados por meio de uma mordida de 15% a 30%”.

O desemprego ou emprego informal (que atinge metade da população) provoca uma onda de violência na capital Caracas. A cidade é hoje considerada a segunda mais violenta das Américas. A explosão da violência é uma prova de que as políticas assistências sequer foram eficazes para mascarar a degradação social.

Por outro lado, a “revolução bolivariana” tem sido muito gentil os novos setores enriquecidos. Os chamados “boliburgueses” já são os novos ricos da burguesia do país. Como se enriqueceram a sombra do governo, freqüentemente estão envolvidos em escândalos de corrupção, como foi o caso Arne Chacón, irmão de Jesse Chacón, ministro e figura histórica do chavismo que participou com Chávez da sublevação militar de 1992. Arne Chacón se converteu do dia para a noite num milionário proprietário de bancos e estava associado a outro “boliburguês”, o empresário Ricardo Fernández.

Consultado a respeito da sua avaliação dos primeiros meses de 2010, o general da reserva respondeu que a situação é péssima: “Tudo o que está ocorrendo não é sadio para o processo revolucionário. Estamos abandonando o internacionalismo, que é característica das revoluções, em troca de um nacionalismo pequeno-burguês que não representa as expectativas da sociedade”, sentenciou. Müller Rojas também deixou claro que no PSUV há muitos burgueses. “Sim eles existem (os burgueses ) porque sua forma de vida o demonstra”. (Diário Panorama, 28 de março de 2010).

O jornal El Nuevo Heraldo destacou um repórter, Steven Dudley, para documentar, em Caracas, a nova classe de ricos da Venezuela. O seu relato, rico em informações, começa dizendo: "Eles conduzem automóveis novos e reluzentes como Hummers e Audis; usam fabulosos relógios Cartier e bolsas Montblanc. Compram apartamentos luxuosos e voam até Miami em aviões particulares. E quase sempre pagam tudo à vista".

Os novos ricos venezuelanos são definidos como integrantes da "boliburguesia", uma palavra inventada que se deriva da burguesia bolivariana e também é uma referência à suposta revolução de Chávez em favor dos pobres da Venezuela.

Os "boliburgueses" surgiram porque Hugo Chávez moveu campanha contra as famílias tradicionais e muito ricas da Venezuela, que sempre detestaram o seu estilo de governar. Mas os altos preços do petróleo abriram as portas para uma nova classe de ricos como banqueiros, operadores do mercado petrolífero e funcionários que se beneficiaram com os grandes gastos do governo.

Um dono de uma concessionária de carros de luxo, em Caracas, disse ao repórter Steven Dudley que "vende automóveis como pão quente e que as compras são em dinheiro vivo, trazido em maletas, não se conseguindo satisfazer a demanda".

Conforme analistas revelaram ao repórter do El Nuevo Heraldo, "esses novos ricos se encontram principalmente nas indústrias do petróleo, nas finanças, na construção civil, assim como no setor governamental". "Todas essas riquezas só podem ser explicadas pela estreita conexão que têm essas pessoas com o governo, já que se tornaram ricos rapidamente", disse José Guerra, ex-funcionário do Banco Central e, atualmente, lecionando economia na Universidade Central de Caracas.

Toda a nova "boliburguesia" criada pelo novo sistema de administrar a Venezuela é grata a Hugo Chávez, que faz questão de cultivá-la, mesmo à custa de uma corrupção jamais vista no país.

O diretor de um jornal venezuelano definiu assim a situação atual do seu país: "Chávez representa a arbitrariedade e esses ricos sabem que os planos dele apontam para o socialismo. Eles tratam apenas de acumular a maior quantidade de dinheiro no menor tempo possível".

A experiência com o chavismo também avança na classe operaria. Nos dois últimos anos, os trabalhadores, especialmente os operários industriais, têm protagonizado lutas que foram duramente reprimidas pelo governo ou por pistoleiros. Vários dirigentes foram assassinados pela polícia.

Estima-se que atualmente, em todo o país, quase 2.400 ativistas do movimento operário, popular e estudantil estão sendo processados judicialmente. Alguns já foram condenados, como Rubén González, dirigente sindical de Ferrominera Orinoco, que está em prisão domiciliar desde o ano passado por encabeçar uma greve por melhores condições de trabalho, saúde e por aumento de salário.

O confronto de setores da classe operária com o governo poderá aumentar. Chávez tenta transferir a crise para a classe trabalhadora, diminuído salário, emprego e atacando condições de trabalho.

Mais de uma década de regime chavista não significou nenhuma mudança estrutural no país, tampouco o levaram a uma “transição ao socialismo do século 21”.

Prefeitura dá cargos a dirigentes de associações comunitárias


Líderes de entidades ganham salários em postos de confiança. Especialistas dizem que relação traz prejuízos para a democracia.

Presidentes de associações de bairros de Curitiba estão ganhando cargos dentro de instituições públicas para “intermediar” o diálogo com a população mais carente da capital. Levantamento feito pela Gazeta do Povo mostra que pelo menos 14 dirigentes de associações de moradores e clubes de mães de Curitiba e região metropolitana foram contratados pela prefeitura da capital, pelo governo do Paraná e pela Câmara de Curitiba em cargos comissionados.

Especialistas afirmam que pode estar ocorrendo uma perigosa cooptação dos dirigentes dessas entidades: ao ganhar um salário público, eles estariam se comprometendo a carrear votos para seus novos chefes políticos. Os líderes comunitários negam que haja problemas no relacionamento, mas as três principais centrais que reúnem as associações de bairros têm ligações políticas e partidárias.

A Federação Comunitária das Associações de Moradores de Curi­­tiba e Região (Femoclam), por exemplo, tem três diretores e coordenadores empregados na prefeitura de Curitiba. Um deles é funcionário da Câmara Muni­cipal. O presidente licenciado é o ex-vereador Valdenir Dias, atualmente contratado como assessor parlamentar das comissões do Legislativo municipal.

O presidente da Femoclam, Nilson Pereira, diz, porém, que os líderes de bairro são orientados a ter independência do poder pú­­blico. Ele destaca que a entidade é autônoma e afirma que o ex-vereador Valdenir não participa da administração por ter vinculação com a Câmara. “Para não dar rolo, para não dizerem que estamos nos beneficiando.” Contraditoria­mente, a sala da presidência da entidade é recheada de fotos e ho­­menagens a Valdenir.

O presidente interino da Fe­­deração das Associações de Mora­­dores do Paraná (Famopar), Luiz de Mauro, é funcionário em co­­missão na prefeitura da capital contratado como agente público da Companhia de Habitação Po­­pular de Curitiba (Cohab). Tam­bém integra o Conselho da Ci­­dade de Curitiba (Concitiba) e o Con­­selho Estadual de Saúde (CES).

“Trabalho com regularização fundiária e conflitos fundiários. Na mobilização das comunidades”, diz Mauro. O presidente, que está reativando a organização, admite proximidade com algumas instituições, mas minimiza o problema. “Eles fazem palestras e nos dão o espaço para reuniões ou fornecem o café”, afirma.

Do outro lado, está o presidente da Federação Democrática das Associações de Moradores, Clu­bes de Mães, Entidades Benefi­centes e Sociais de Curitiba (Fe­­mo­­tiba), Edson Feltrin. Embora não tenha cargo político no momento, Feltrin é filiado ao PDT – partido de oposição ao prefeito Luciano Ducci (PSB). E atua como verdadeiro oposicionista: foi ele, por exemplo, quem levou à Câmara um pedido de impeachment contra o presidente do Legislativo municipal, João Cláudio Derosso (PSDB), por supostas irregularidades em contratos de publicidade.

Feltrin também prega independência. Diz que “líderes co­­munitários não podem ser pedintes a vida toda” e por isso defende a autonomia das associações. Ele defende a atuação que faz como uma forma de “conscientização”. “A finalidade da Femotiba é elevar a consciência política das lideranças”, resume.


Especialistas

Contratações reforçam clientelismo

O fato de líderes de bairros se aproximarem de políticos em troca de obras e investimentos gera uma relação de dependência com o poder público com prejuízo ao sistema democrático, segundo especialistas. Para a doutora em Ciência Política Samira Kauchakje, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o problema acontece quando o poder público passa a atender os pedidos não porque eles são um direito dos cidadãos, mas sim porque há um compromisso político das lideranças. “A troca de votos é o que motiva a relação clientelista”, afirma.

O professor de História José Roberto de Vasconcelos Galdino, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), que trabalhou em seu mestrado justamente a formação política das associações de moradores em Curitiba, explica que a relação de interdependência não é nova. Essa característica, segundo ele, começou a se formar na década de 80, quando prefeitos de estilo mais popular – como Maurício Fruet e Roberto Requião – governaram a capital e levaram líderes comunitários para dentro da administração pública. Segundo ele, isso enfraqueceu o movimento popular na época, que havia sido bastante combativo contra a Ditadura Militar.


Comissionados negam, mas fazem campanha

Os dez líderes comunitários empregados na prefeitura de Curitiba garantem que ter um cargo em comissão não significa apoio incondicional ao Exe­cutivo e aos seus representantes. Todos dizem que foram contratados na capital para realizar funções de assessoramento de associações de bairro e clubes de mães, além de in­­termediar as reivindicações com o poder público. Não ha­­veria compromisso de apoio eleitoral.

HELIBERTON CESCA

domingo, 11 de setembro de 2011


O mês de setembro, há dez anos, passou a ter importância histórica para as relações internacionais. Em 11 de setembro de 2001, o maior ataque ao território continental dos Estados Unidos foi realizado com sucesso, fato que levou a uma grande alteração na política mundial. Tais mudanças podem ser vistas a partir de três eixos interconectados:

  • O primeiro é o da política externa estadunidense. Os ataques de 11/09 possibilitaram aos neoconservadores do Partido Republicano implementar suas políticas unilaterais e intervencionistas, baseadas na visão de que os Estados Unidos são um país de exceção, que têm o direito de intervir no exterior para “civilizar povos menos evoluídos”, implementando seu modelo político-econômico.
  • O segundo aspecto importante é que essa mudança de rumo da política externa dos EUA, potencializada pela dissipação do medo na população do país, pode ser relacionada à atual crise da economia mundial.
  • Por fim, outro ponto importante a ser observado a partir do ataque às Torres é uma grande descrença nas instituições multilaterais, como o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Bush passou por cima dessas instituições.
Até que o plano de jogar aviões Boeing contra os edifícios de 110 andares fosse colocado em prática, as estruturas eram descritas como indestrutíveis, superprédios que jamais seriam derrubados. Uma noção esmagada em 2001 por ataques engendrados em um dia que ainda não acabou e dei­­xou parte do mundo refém do terror .


A data no ca­­lendário virou um evento histórico, com artigo e letra maiúscula: o 11 de Setembro. A inauguração do Memorial na se­­mana que vem marca os dez anos desse fato.O lugar é formado por dois es­­pelhos d’água com cerca de 4 mil metros quadrados cada um, marcando os pontos onde antes estavam as Torres Gêmeas. Nos painéis de bronze ao redor dos quadrados estão inscritos os nomes das vítimas, seguindo uma lógica incomum. Em vez da ordem alfabética, eles foram organizados de acordo com o prédio em que as pessoas trabalhavam, sendo agrupadas por laços profissionais ou sentimentais.

Também para marcar os dez anos, o presidente Barack Obama deve visitar cada um dos três locais implicados no 11 de Setembro: o Marco Zero, em Nova York, a re­­gião de Shankville, na Pensilvânia, onde caiu o voo 93 da United Airlines, e o Pentágono, no estado da Virginia, atingido pelo voo 77, da American Airlines.

O nome Marco Zero para batizar o terreno onde antes estavam as torres do World Trade Center, o centro financeiro do mundo, não é reflexo da megalomania norte-americana. De fato, ali está o cenário em que uma nova ordem mundial teve início.

“É um marco da história recente”, diz o professor Marcos Alan Ferreira, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos, em São Paulo. Os terroristas, que agiram sob o comando de Osama bin La­­den, con­­­seguiram al­­terar a geo­­polí­tica mundial, combatendo os norte-americanos porque eles são, aos olhos de al­­guns islâmicos radicais , uma mi­­noria entre os mu­­­çul­­­manos, os representantes de sa­­tã. Uma nação distante da Lei Co­­­râ­­­­­nica, as regras contidas no Corão.

O 11 de Setembro é com fre­­quên­­cia apresentado como o evento que anunciou o século 21. Para a professora de Geopolítica da do Grupo Dom Bosco Luciana Worms, ele deu início às guerras sem uniforme. “Você não distingue quem é o inimigo. São guerras as­­simétricas, de países contra grupos e você corre o risco de matar amigos ao combater os inimigos.”

O escritor Lawrence Wright, no livro O Vulto da Torres – A Al-Qaeda e o Caminho Até o 11/9 (Companhia das Letras), explica que os islâmicos radicais “consideram o Oci­­dente responsável por corromper e humilhar a sociedade islâmica”. O ódio começou com o regime se­­cular do Egito, mas não demorou a envolver os EUA, Israel e a União So­viética.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011


Gelo do Ártico

Derretimento do gelo polar está mudando o cenário na região

A quantidade de gelo que cobre o Ártico caiu no verão boreal de 2010 ao mínimo já registrado, disseram pesquisadores em um estudo a ser publicado em breve, sugerindo que o afinamento do gelo superou a recuperação na área.

O estudo estimou que a cobertura de gelo no Ártico em 2010 - calculada com base na sua espessura e extensão - foi inferior ao recorde negativo anterior, em 2007, refletindo a tendência global de aquecimento.

Cientistas preveem que o Ártico pode ficar totalmente sem gelo durante o verão daqui a algumas décadas. Isso criaria oportunidades lucrativas em áreas como navegação e exploração de petróleo, mas também teria consequências climáticas para o mundo todo, a começar pelo aumento do nível dos mares.

Os autores do estudo, da Universidade de Washington, em Seattle, desenvolveram um modelo para estimar a espessura do gelo no oceano Ártico com base em medições dos ventos e da temperatura atmosférica e oceânica. Os resultados foram comparados com amostras reais.

"O fato realmente preocupante é a tendência de redução nos últimos 32 anos", disse Axel Schweiger, principal autor do estudo, referindo-se aos registros por satélite do Ártico. A redução em 2010, segundo o estudo intitulado "Incerteza no volume de gelo marinho do Ártico estimado por modelos", foi "por uma margem suficiente para estabelecer um novo recorde estatisticamente significativo".

Schweiger divulgou os dados em email à reportagem da Reuters a bordo do quebra-gelo Arctic Sunrise, do Greenpeace, que está no oceano Ártico, entre a ilha norueguesa de Svalbard e o Polo Norte.

A espessura do gelo é tão importante quanto a sua extensão, ou até mais, para entender o que está acontecendo no Ártico. Alguns especialistas argumentam que a redução dramática na extensão da camada de gelo nos últimos anos ocorre por causa de um afinamento constante nas últimas décadas.

O método usado no estudo é criticado por alguns especialistas, que o consideram menos preciso que as observações diretas. Os autores argumentam, porém, que a tendência geral de afinamento do gelo acaba sendo registrada por esse método.

Na semana passada - faltando ainda duas semanas para o fim da temporada do degelo - a cobertura de gelo no oceano Ártico ficou abaixo dos 4,6 milhões de quilômetros quadrados. A menor extensão já registrada foram 4,13 milhões de quilômetros quadrados em 2007.

O gelo marítimo propriamente dito não eleva o nível do mar quando se descongela, mas o aquecimento do Ártico pode acelerar o derretimento da camada de gelo da Groenlândia, que é composta por água doce acumulada sobre a terra, num volume suficiente para elevar o nível global dos oceanos em 7 metros.

A água do Ártico está mais quente que em qualquer período dos últimos dois mil anos. Pesquisadores de universidades da Alemanha, Noruega e Estados Unidos analisaram sedimentos no estreito de Fram, no oceano Ártico e o resultado do estudo sugere que o rápido aquecimento do Ártico está vinculado à intensificação da transferência de calor para todo o Atlântico Norte, podendo também ter consequências no hemisfério Sul.

O estudo mostrou que a água do estreito de Fram, entre a Groenlândia e o arquipélago norueguês Svalbard aqueceram cerca de 1,94 º C no último século. Hoje, a temperatura da água da região está cerca de 1,38 ºC mais quente do que durante o último episódio de aquecimento, que aconteceu na Idade Média, entre 900 e 1300, e aqueceu o Atlântico Norte, afetando o clima na Europa setentrional e norte da América do Norte.

O aumento da temperatura neste ponto tem consequências no fluxo de correntes marinhas de outras partes do planeta. “O recorde da temperatura da água nesta área influencia na circulação oceânica como um todo”, disse Evguenia Kandino do Instituto de Ciências Marinhas Leibniz, da Alemanha, que participou do estudo.

O que acontece
Robert Spielhagen, autor do artigo publicado nesta edição do periódico científico Science, explica que o fluxo crescente de calor atrasa o congelamento da água do mar, o que resulta no afinamento da cobertura de gelo marinho. “Isto terá uma influência fundamental sobre a circulação atmosférica em grande escala e em torno do Ártico e pode até mesmo influenciar o clima no hemisfério sul”, disse.

De acordo com o estudo, a diminuição acelerada da cobertura de gelo ártico e o aquecimento do oceano e da atmosfera na região estão, em parte, relacionados com uma maior transferência de calor do Atlântico.

Spielhagen afirma o recorde de temperatura deve estar ligado à ação do homem, visto que não há temperatura semelhante a de agora nos últimos 2000 mil anos.

“As razões e mecanismos para o aquecimento são múltiplas, mas em geral eles estão relacionados ao excesso de calor no sistema oceano-atmosfera por causa do efeito estufa. O aumento da energia térmica deste sistema pode fortalecer ambos os sistemas de circulação oceânica e atmosférica”, disse.

Como foi feito
Os pesquisadores conseguiram os dados a partir da análise de sedimentos de protozoários chamados foraminíferos, que vivem em uma temperatura específica nas profundezas do oceano. Suas conchas se depositam no fundo do mar e forma camadas conforme o tempo. A partir de um cálculo que levou em conta a quantidade de conchas e análise química de sua composição, os pesquisadores conseguiram obter um registro confiável das temperaturas dos últimos 2 mil anos.

terça-feira, 9 de agosto de 2011



As raízes do vício

Faculdades de Medicina dos EUA criam programas de residência para estudar a relação entre vício e a química do cérebro

Há um debate antigo sobre o alcoolismo: é problema na cabeça do sofredor – algo que pode superar a terapia da força de vontade, espiritualidade e diálogo, talvez – ou é uma doença física, que precisa de tratamento médico contínuo da mesma forma que exigem diabete ou epilepsia? Cada vez mais o estabelecimento médico está se sobrepondo ao último diagnóstico.

Nas evidências mais recentes, dez faculdades de medicina nos Estados Unidos apresentaram os primeiros programas de residência credenciados so­­bre a medicina do vício, nos quais médicos que concluíram a faculdade de Medicina e a residência primária poderão passar um ano estudando a relação entre o vício e a química do cérebro.
“Este é o primeiro passo rumo ao reconhecimento, respeito e rigor à me­­dicina do vício”, disse David Withers, que supervisiona o novo programa de residência no Centro de Tratamento de Dependência de Álcool e Entorpecentes Marworth, em Waverly, Pensilvânia.

O objetivo dos programas de residência, que começaram no dia 1.º de julho com 20 alunos de várias faculdades, é estabelecer a medicina do vício como padrão especialmente com as linhas de pediatria, oncologia e dermatologia.

Os residentes tratarão os pacientes com uma série de vícios: álcool, drogas, remédios controlados, nicotina e muito mais – e o estudo da química do cérebro envolvida e o papel da hereditariedade.

“Antigamente, a especialidade estava muito mais voltada para os psiquiatras”, diz Nora D. Volkow, neurocientista encarregada do Instituto Nacional de Abuso de Drogas. “É uma falha do nosso programa de treinamento”.

Ela considera a falta de educação so­­bre o abuso de substâncias entre os mé­­dicos em geral “um problema muito sério”.

A reconsideração do vício como pa­­tologia em vez de uma doença estritamente psicológica começou há cerca de 15 anos, quando pesquisadores descobriram via exames de alta ressonância que o vício das drogas resultou em alterações físicas do cérebro.

Munidos dessa informação, “o tratamento dos pacientes com vício torna-se bem mais parecido com o tratamento de outras doenças crônicas, como asma, hipertensão ou diabete”, afirma Da­­niel Alford, que supervisiona o programa no Centro Médico da Universidade de Boston. “É difícil curar necessariamente as pessoas, mas certamente você pode controlar o problema ao ponto de elas poderem viver bem com uma combinação de remédios e terapia.”

A essência do entendimento do vício como doença física é a crença de que o tratamento deve ser contínuo para evitar a recaída. Assim como ninguém espera que um paciente seja curado após seis semanas de dieta e administração de insulina, argumenta Alford, não faz sentido esperar que a maioria dos viciados em drogas seja curada depois de 28 dias em uma clínica de desintoxicação.

“Não é surpresa para nós agora que quando você interrompe o tratamento, as pessoas têm recaída”, diz ele. “Isso não significa que o tratamento não funciona, apenas significa que é preciso continuar o tratamento”. Essas alterações físicas no cérebro também poderiam explicar por que alguns fumantes ainda desejam o cigarro depois de 30 anos sem fumar, observa Alford.

Se a ideia do vício como doença crônica demorou em entrar no círculo da medicina, deve ser porque os médicos às vezes relutem em entender o funcionamento do cérebro, reitera Volkow. “Embora seja muito simples entender uma doença do coração (o coração é muito simples, é apenas um músculo), é muito mais complexo entender o cé­­rebro.”

O aumento do interesse na medicina do vício é uma série de novos medicamentos promissores, mais notavelmente a buprenorfina (vendida sob nomes como Suboxone), que provou amenizar os sintomas da abstinência em viciados em heroína e subsequentemente bloquear o desejo do consumo, embora cause efeitos colaterais. Outros medicamentos para o tratamento da dependência do ópio e do álcool também se mostraram promissores.

Poucos especialistas em medicina do vício defendem um caminho para recuperação que dependa exclusivamente de remédios, porém.

“Quanto mais aprendemos sobre o tratamento do vício, mais percebemos que uma regra não vale para todos”, diz Petros Levounis, encarregado da residência no Instituto do Vício de Nova York no St. Luke’s-Roosevelt Hospital.

Igualmente maligna é a ideia de que a psiquiatria ou o programa de 12 passos sejam adequados para curar uma doença com raízes físicas no cérebro. Muitas pessoas que abusam de substâncias não têm problemas psiquiátricos, observou Alford, que acrescenta: “Acho que há absolutamente uma função para os psiquiatras do vício”.

Embora cada faculdade tenha desenvolvido sua própria grade curricular, as competências básicas que cada uma procura transmitir são as mesmas. Os re­­sidentes aprenderão a reconhecer e diagnosticar abuso de substâncias em pacientes, conduzir breves intervenções que apresentam as opções de tratamento e prescrever os medicamentos adequados.

Espera-se também que os médicos entendam as implicações le­­gais e práticas do abuso de substâncias.

Dependência

Médica relata dificuldade para tratar pacientes

Christine Pace, de 31 anos, formada pela Faculdade de Medicina de Harvard, é a primeira residente da medicina do vício no Centro Médico da Universidade de Boston. Ela se interessou pelo assunto na adolescência, quando trabalhou como voluntária em uma organização de tratamento da aids e ouvia viciados em heroína reclamarem dos médicos que não podiam ou não queriam ajudá-los.

Neste ano, quando se tornou médica interna de uma clínica de metadona em Boston, ela ficou consternada ao descobrir que as reclamações não mudaram.

“Vi médicos repetidas vezes deixando isso de lado, apenas chamando um assistente social para lidar com pacientes que lutam contra o vício”, conta Pace.

Um de seus pacientes é Derek Anderson, 53 anos, que credita ao medicamento Suboxone – e também a um clínico-geral que reconheceu há seis anos seus sinais de vício – a ajuda a largar seu vício em heroína que tem há 35 anos.

“Eu costumava ir a clínicas de desintoxicação repetidas vezes”, disse ele. Mas o Suboxone ”.“faz com que eu não tenha a dependência diária, que te consome e te engole como um peixe na água. Agora eu consigo trabalhar, cuidar da minha filha, pagar meu aluguel, tudo que eu não conseguia fazer quando usava a droga".


O verdadeiro lugar de Amy

Com apenas um disco de sucesso, a cantora britânica está no mesmo patamar de grandes figuras do jazz, blues, soul e funk.

Todos os problemas enfrentados em sua biografia não encontravam espaço enquanto cantava. Um escudo sonoro formado por sua doce voz bloqueava as atribulações com drogas, relacionamentos, traumas e exposição pública. Eram sombras que perambulavam as beiradas do palco iluminado em busca de uma brecha para deturparem ideias e pensamentos. Promoviam um autoflagelo físico e psicológico, que manteve intacta a música e seu efeito em milhares de pessoas durante anos. Ela morreu sem nada, sozinha e vítima dos excessos, porém, era amada pelos amigos, familiares, fãs, e deixou uma obra imortal. A cantora Billie Holiday tinha 44 anos quando morreu, no dia 17 de julho de 1959, mas já está mais do que evidente que a sua triste história está longe de ser um fato isolado.

E cá estamos, em 2011, lamentando a morte de uma artista que, com apenas um disco de sucesso, conquistou o espaço ao lado de Lady Day – como Billie era chamada – e mal foi aproveitada por nós. Amy Winehouse se foi e tais palavras ainda são difíceis de serem lidas e escritas.

Esqueça um pouco a sensacionalista história dos amaldiçoados 27 anos no show business e coloque Amy em outro contexto. No cenário povoado pela já citada Billie Holiday, ao lado de Miles Davis, Charlie Parker, John Coltrane, Ray Charles, Bessie Smith, James Brown, Frank Sinatra… Assim segue uma longa lista de grandes figuras do jazz, blues, soul e funk que se afundaram em demônios interiores para viver, sofrer e morrer pela música. Artistas que foram inconsequentes, mas que nos maravilham até hoje. Carma devidamente equilibrado, não acha? Aí está o lugar de Amy Winehouse, e isso não é nenhum exagero.

O retorno para a black music

Em uma sexta-feira de outubro de 2006, uma locutora apresentava pela Radio 6, da inglesa BBC, um lançamento especial daquela semana. O “resgate da soul music” no disco de uma cantora que chegava com um single avassalador; a dúvida de ir ou não para a reabilitação. Como qualquer outro grande sucesso da black music, a composição se apropriava de um dilema do artista e surgia como um mosaico de emoções e revelações que agitavam as pistas de dança, grudavam nos ouvidos e criavam pautas para órgãos conservadores e reguladores da sociedade. Deu certo.

Sempre machucou os ouvidos a frase “resgate da soul music” associada à obra de Amy. Desde quando se deixou de ouvir soul por aí? Funciona como o reggae, um gênero mantido com as regras de sua cartilha, e que não precisa de resgate ou atualização. Ele vive por si só, do mesmo jeito que veio ao mundo. Só precisa de um pequeno e talentoso empurrão. Assim, surge o impecável álbum Back to Black e o devido reconhecimento da maravilhada locutora que escolhia a noite de sexta para falar um pouco mais sobre ele.

Quem era Amy Winehouse nesse contexto? Uma guria com pouco mais de 20 anos, tatuada, com jeitão de pin-up e um leque invejável de referências e competência que explodia pelo corpo enquanto dançava com suas pernas finas. Uma figura de traços fortes e durona, que derretia a casca toda vez que confessava como queria ser cuidada por seu homem. Ela representou um sinal de esperança para a música pop, lançando um cavalo-de-tróia no formato de disco que chegava com roupagem descolada e resumia a história das músicas produzidas em guetos e porões. “Rehab” foi a ponta do iceberg para ampliar o horizonte de uma base de ouvintes e fãs que se tornaram público em potencial para novas possibilidades sonoras. Adele está nas paradas de sucesso até hoje e agradece, assim como Duffy, Pixie Lott, Sharon Jones e outras tantas. Mas quem ganhou mesmo com isso tudo fomos nós.

A despedida

No começo do ano os brasileiros tiveram o privilégio de conferir algumas das últimas aparições em público de Amy. Olhares e ouvidos do mundo atentos com o que aconteceria em Florianópolis, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro.

A estreia da turnê brasileira aconteceu da melhor maneira possível, com a leve brisa da praia que amenizava a noite quente em Floripa. Músicos no palco, roupas leves e brancas e surge Amy Winehouse no alto de sua timidez. Carregava uma garrafa de plástico e logo deixou claro que era água. Respirou fundo e cantou olhando para o nada.

Aqueles que compareceram ao show em busca dos típicos “bafons” de Amy ficaram um tanto decepcionados. Quem também procurava hits imediatos na linha de “Rehab”, “Me and Mr. Jones” ou “You Know I’m No Good”, também não gostaram muito. O show flutuou pelas levadas jazzísticas, cutucadas no doo-wop, ska e soul. Perfeito para ouvir na praia.

Ironia do destino, a pior música executada durante o show foi “Rehab”, justamente o clássico das multidões. Nada mais justo, uma confissão forçada que não fazia mais sentido. Ela sabia disso e, agora, nós também. Mas a história contada daqui para frente será bem diferente.

sábado, 23 de julho de 2011


"Que a sua alma perturbada encontre a paz".

A cantora inglesa Amy Winehouse, encontrada morta neste sábado (23), na Inglaterra, seguiu o mesmo roteiro trágico de outros ídolos mundiais da música pop, como Janis Joplin, Kurt Cobain, Jim Morrison e Jimi Hendrix. Todos esses artistas encerraram a carreira e a vida, a maioria por envolvimento com drogas, aos 27 anos.

Morto em 1970, também em Londres e sob circunstâncias nebulosas, Hendrix conquistou fama na década de 1960 ao mostrar seu talento com a guitarra, sendo considerado por muitos como um dos maiores guitarristas da história.

Uma das grandes cantoras de rock da década de 1960, conhecida por sua voz rouca e singular, a cantora norte-americana Janis Joplin também faleceu antes de completar 30 anos. A artista, que passou pelo Brasil em 1970 com sua turnê, ano de sua morte, foi vítima de uma overdose de heroína.

Em 1969, o ex-Rolling Stones Brian Jones foi encontrado no fundo de sua piscina, em 1969, e declarado morto por afogamento. Ele tinha 27 anos. Dois anos depois, o compositor e cantor Jim Morrison, vocalista e líder da banda The Doors, também faleceu. Ele havia dado um tempo na banda e tentar se dedicar a outras atividades. Foi encontrado em um hotel de Paris, França.

Mais de duas décadas depois, também com 27 anos, Kurt Cobain, vocalista da banda de rock Nirvana, foi encontrado morto em sua casa, após dar um tiro de espingarda na cabeça. O cantor sofria de depressão e também fazia uso de drogas.

Será que ela já tinha isso em mente? Acordar dia 23 de julho de 2011, encher a cara de álcool, drogas e tudo mais e esperar a tal overdose tomar conta das manchetes mundo afora?Amy era ingênua demais para isso.

Seria, então, uma maldição de entidades superiores?

A luta contra a dependência química é diária e muito árdua. Para uma pessoa se recuperar é preciso ser um leão e ter uma força de vontade sobrenatural. Amy pode até ter tentado seguir por esse caminho algumas vezes, mas era mais fraca (e talvez mais influenciável) que muita gente.

Quem conferiu sua apresentação na turnê pelo Brasil, em janeiro deste ano, se lembra de uma moça pequena, bem magra, “quicando” no palco. Quando alcançava alguma nota alta, ou fazia firula em determinada frase da canção, era ovacionada pelo público e parecia se intimidar com os aplausos. Assim como uma criança que se envergonha quando vira o centro das atenções.

“A diferença entre as divas e nós é que a vida delas está na vitrine, para nosso julgamento. Nossas dores ficam entre quatro paredes”.

Amy não tinha para onde correr com sua angústia. Nem a música, maior válvula de escape dos artistas, lhe completava mais. Ela estava esgotada da pressão, dos jornais, da família, dos palcos. Alguns poucos amigos tentavam mantê-la nos trilhos, mas após anos e anos escorregando era fácil demais cair de uma vez.

E Amy morria aos poucos, aos olhos de todos...

Durante uma entrevista em 2008, a mãe de Amy, Janis, disse que a família não ficaria surpresa se a filha morresse antes da hora. "Eu conheço minha filha há muito tempo e sei que ela pode estar morta dentro de um ano. Nós estamos olhando ela se matar lentamente", desabafou.

Ela entra na história como uma estrela que não soube agüentar seu brilho. Talvez ela não tivesse noção do tamanho da sua qualidade vocal. Talvez ela não estivesse mesmo nem aí pra isso. Ela só queria beber uma cerveja, virar a noite louca, fazer amor com seu homem e desfilar suas sapatilhas de balé.

Mas não se pode negar o talento de Amy.