domingo, 11 de abril de 2010

I V O R O D R I G U E S
Curitiba perdeu “A” VOZ.

A principal voz do rock curitibano não canta mais. Ivo Rodrigues, a voz que fez o rock nascer em Curitiba, morreu.

Cada apresentação, para Ivo, parecia ser uma viagem a Passárgada. Qualquer canção, quando ele cantava, era um mergulho em uma máquina do tempo. Tempo esse em que tudo parecia ser possível, mais leve, alegre.

Foram 40 anos fazendo o povo cantar e sorrir com suas histórias alegres e malucas. Foi ele que abriu a chave para a entrada do rock na cidade e depois cercou-o com uma blindagem para que ninguém o roubasse. E o rock curitibano cresceu forte e teve inúmeros filhos.
Em alguma noite perdida na virada dos anos 70 para os 80,um adolescente imberbe presenciou em noites frias curitibanas ao mesmo tempo o fim da banda A Chave e o nascimento da Blindagem. Com alguns outros nomes de bandas pelo meio do caminho – até um incrível “Movimento Parado” – e um elo de ligação: Ivo Rodrigues. No início dos novos tempos, na transição de um para o outro, uma atração musical era anunciada em cartazes como Ivo e Blindagem, o que já mostra o prestígio do cantor.

A Chave e a Blindagem são como lado A e lado B do mesmo LP (Long Play, um disco de vinil). A Chave foi o início do rock curitibano, banda que fez sucesso aqui e no Rio de Janeiro (então a capital cultural do Brasil, nos anos 70), mas só gravou um compacto. Divergências naturais entre jovens criativos ligados ao sexo, drogas e rock-and-roll fizeram a banda dar um tempo. Não sem antes ficar marcada definitivamente na história musical paranaense.

Depois, veio a Blindagem, banda que está em atuação até hoje e qualquer pessoa com um mínimo de informação musical curitibana sabe de sua história. Ivo e Paulo Teixeira (guitarra) são os remanescentes da Chave no Blindagem. A banda nasceu poderosa fazendo shows em ginásios e festivais, dividindo o palco com grandes nomes da época, como Casa das Máquinas, Bixo da Seda, Tutti Frutti, entre outros.

Ivo levou para a Blindagem não apenas sua voz estrondosa, elástica e um tanto rouca. Também levou as composições em parceria com Paulo Leminski que foi, por um tempo, uma espécie de reserva de luxo, tanto da Chave quanto da Blindagem. Tempos criativos, em que a música não se isolava como arte, juntava-se a outras formas de expressão, como a poesia, as artes plásticas e o teatro. Dessa união nasceram dezenas de apresentações do Rock Horror Show, concepção do diretor Antonio Carlos Kraide, no Teatro Guaíra, um espetáculo roqueiro e anárquico que misturava música e teatro.



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Na sequência, a banda fez apresentações em vários estados do país, lançou discos por grandes gravadoras e a história continuou. A banda, talvez pela primeira vez no Brasil, uniu bem o rock e o sertanejo, em parcerias de Ivo e Leminski que são cantadas até hoje. Foi a banda paranaense mais ativa no cenário nacional nos anos 80, anos que marcaram o fortalecimento do rock nacional.

Tudo isso seria possível sem o carisma e a voz de Ivo Rodrigues?

Não vou falar aqui de toda a carreira do Blindagem que até deve continuar, mesmo sem Ivo. Os trágicos últimos anos de sofrimento vieram preparando a banda para esta nova transição e a ela desejo boa sorte na caminhada.

Nos últimos anos, os excessos vinham cobrando sua conta do fígado de Ivo. Há dois, ele passou pelo processo de falência do fígado, resolvido com um bem sucedido transplante. No início deste ano, foi descoberto um câncer que atacou o rim do cantor. Foram dois meses de sofrimento para ele e a família. Deixa continuidade na música, pois o filho Ivan é um excelente baterista.

Mesmo passando por mo­­mentos difíceis e doloridos, Ivo nunca deixou de cantar. Ignorava recomendações médicas e aparecia de surpresa em shows em bares até quando aguentou. Já nesta última fase de sofrimento mais agudo, arrumava forças para cantar até no hospital, como relatou o filho Ivan, em um post no Twitter nesta semana.

Na noite desta quinta-feira, Curitiba perdeu “A” voz. Mas as canções de Ivo Rodrigues permanecerão para sempre.

Ao lado do caixão de Ivo Rodrigues, estavam uma rosa vermelha e uma baqueta quebrada. Sobre o corpo, duas de suas paixões estavam representadas por objetos: na parte inferior, a bandeira do Coritiba. No peito, repousada perto do coração, sua inseparável gaita de boca, agora silenciada.

Sou gaivota por sobre o mar
Meu vôo é volta
De qualquer lugar
Desapareço no tempo, no ar
Antes que um olho
Consiga piscar

Num vôo razante
O que eu vi
Não dá pra acreditar
Dá pra acreditar
Minhas penas tremendo
Me levem daqui
Faço parte do vento
Vou me embora correndo
Se acalme...


Luiz Claudio Oliveira - G.P

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