quinta-feira, 30 de abril de 2009

DROGAS - ABRIL NEGRO







Religião afasta jovens das drogas, diz pesquisa


Estudo mostra que 96% dos que nunca usaram freqüentam igrejas

Nas favelas da capital, a religiosidade é um dos principais fatores que têm afastado os jovens das drogas. Pesquisa realizada com moradores de 12 localidades onde há tráfico mostra que 96% dos jovens que nunca se envolveram com drogas afirmam ter religião e 81% participam de atividades em igrejas. O estudo, tese de mestrado da psicofarmacóloga Zila van der Meer Sanchez, de 25 anos, também conclui que as campanhas nas escolas não surtem muito efeito. No ranking de influências benéficas, a igreja só é superada pela família.
"A religião é um fator protetor no meio das pessoas carentes", resume. Os entrevistados que nunca usaram narcóticos demonstraram religiosidade maior.

"Eles tinham um envolvimento grande com a igreja. Sabiam que, se usassem drogas, não teriam uma vida boa."


Durante dois anos, ela entrevistou 62 jovens, homens e mulheres, de 16 a 24 anos. Destes, 32 nunca haviam experimentado e 30 faziam uso pesado de maconha, cocaína e crack. A pergunta central da tese, defendida na Escola Paulista de Medicina (Unifesp), em outubro, é o que leva esses jovens a recusar drogas.
Zila afirma que o trabalho demonstrou ser possível "viver num ambiente permeado pela droga e, mesmo diante da curiosidade, oferta e permissividade do meio na aceitação do consumo, negar a experimentação".

Já nas primeiras entrevistas, os jovens falaram da religiosidade. Entre os usuários, os números foram baixos: 33,3% dizem ter religião e 13,3% vão a missas, cultos ou outras atividades.
Entre os que não se drogam há católicos (38%), evangélicos e protestantes (32,3%), espíritas (9,6%), umbandistas (6,5%) e sincréticos (12,9%). Já os dependentes são católicos (50%), evangélicos ou protestantes (10%), espíritas (20%), daime (10%) e sincréticos (10%). Segundo a pesquisadora, embora a maioria dos jovens se declare católica, as religiões protestantes são as mais praticadas.

Família e escola - O principal fator protetor contra as drogas é a família, mencionado por 78% dos não-usuários. Alguns afirmaram não tê-las usado porque nunca fariam isso com a mãe. Já as campanhas nas escolas não teriam muita influência.


"Eles deixam claro que recebem prevenção nas escolas, mas não acreditam naquilo. A informação de maior impacto vem da família."

Entre os motivos que levam ao consumo estão curiosidade (30%), fuga dos problemas (33%), "embalo" (23%) e influência do namorado (23%). "Os rapazes influenciaram as meninas. O inverso não ocorreu", diz Zila, que aprofunda o tema no doutorado, também na Unifesp. Por ter prometido sigilo, ela não revelou o nome das favelas abordadas.

Para a professora da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) Florence Kerr-Correa, titular do departamento de Neurologia e Psiquiatria, a ligação entre religião e a recusa às drogas é "um achado consistente". Segundo ela, a Unesp também já realizou levantamentos que apontavam essa conexão.

ANGÉLICA FREITAS



quarta-feira, 29 de abril de 2009

Drogas - tratamento




O dependente químico sofre perdas acentuadas e mais graves do que qualquer outro, está relacionado com a doença crônica/ incurável – progressiva – multifacetada.
A dependência química torna-se uma maneira de vida: é um relacionamento destrutivo. A pessoa tem a sua auto-estima diminuída, com recursos internos e externos limitados para lidar com a complexidade da vida. Alguns toxicodependentes já estão tão viciados que não admitem a sua dependência dizendo que quando quiserem deixam de consumir. Isso não é bem assim, o corpo já está habituado à substância que dificilmente “sobrevive” sem ela.Admitir que se é dependente acaba acontecendo com ou sem boa vontade pois é baseada em factos e não em teorias. Para alguns com grandes dificuldades e para outros com facilidades mas acaba por acontecer.
Ao tomarem conhecimento da dependência, sabem que é uma doença e verificam que também é um facto. Cabe a qualquer ser inteligente escutar coisas novas, e o familiar, não estando acostumado com coisas novas, tem medo ou aversão a isso.
O tratamento da toxicodependência exige que o doente esteja consciente de que sofre de dependência, que tenha um desejo firme de se curar e que seja capaz de aceitar um compromisso de abstinência absoluta e definitiva.Existem centros de tratamento que ajudam os toxicodependentes desabituarem-se de consumir drogas. Isto é, são centros de atendimento a toxicodependentes, ou seja, são unidades de tratamento em regime ambulatório em que se prestam cuidados globais dos toxicodependentes, individualmente ou em grupos.


Comunidades terapêuticas


São unidades terapêuticas que prestam cuidados a toxicodependentes que necessitam de internamento prolongado com apoio psicoterapêutico e socioterapêutico com o objectivo de promover o seu tratamento e a sua ressocialização
A reinserção social dos toxicodependentes reveste-se de uma importância acrescido no actual contexto de discriminação dos consumos, onde o toxicodependente é, fundamentalmente, encarado como um doente susceptível de tratamento e reabilitação. Neste sentido, a reinserção passa a ser considerada parte do tratamento e este nunca está completo sem ela.A Reinserção Social contribui para a eficácia do tratamento, conduzindo à realização pessoal e ao restabelecimento das redes sociais de suporte, no sentido da estabilidade clínica, emocional e social do indivíduo. É o processo através do qual o indivíduo reestrutura a sua personalidade e a sua vida, desenvolvendo competências de autonomia e responsabilidade, capazes de o valorizar enquanto membro útil à sociedade.A Reinserção Social, enquanto intervenção terapêutica, tem que surgir em função de cada indivíduo, pelo conhecimento da sua identidade exclusiva e diferenciada durante o processo de tratamento.


Droga divide agentes e pode abortar princípios da reforma psiquiátrica


O técnico em dependência química José Antônio Schardong e a psicóloga Janaína Trierweiler têm um sonho – a criação de uma rede de proteção para os usuários de crack em Curitiba e região metropolitana. “Falta uma iniciativa que aglutine os agentes do setor. Quem sabe a Secretaria Municipal Antidrogas consiga isso”, sugere Janaína. Ela se refere aos médicos que atuam nos poucos hospitais que ainda oferecem tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), profissionais dos Centros de Atendimento Psicossocial Álcool-Drogas (CapsAD), organizações não-governamentais, clínicas, órgãos de segurança e educadores.


A reivindicação da dupla – que em parceria com o médico Higino Bodziak está à frente do Comunidade Terapêutica Dia (CTDia) – não é da boca para fora. Nos últimos cinco anos, com o avanço no número de usuários de pedra, aumentaram também os problemas dos que trabalham na prevenção e tratamento de dependentes químicos. Estima-se, por exemplo, que cerca de 400 leitos foram extintos na Grande Curitiba – a exemplo do Hospital Pinheiros, em São José dos Pinhais, e do Nossa Senhora da Glória, na capital.


Além do mais, não há um espaço apropriado para crianças e adolescentes em processo de desintoxicação – obrigando-os à convivência nada recomendável com adultos na mesma situação. Sem falar no fetiche da sociedade pela repressão, em detrimento das campanhas e ações sociais. Uma organização de agentes, como defende o corpo técnico do CTDia, poderia facilitar a atuação de quem lida com filas de espera que chegam a 1,5 mil usuários e vê a situação descendo a ladeira.
Não é tarefa fácil. Psiquiatras, técnicos, ongueiros e terapeutas do setor não falam a mesma língua. Um dos pomos-da-discórdia é o próprio modelo adotado pelo Ministério da Saúde, pautado na Lei da Reforma Psiquiátrica (10.216), de 6 de abril de 2001. Na contramão das internações, tratamentos agressivos e isolamento dos dependentes químicos, a reforma adotou medidas terapêuticas mais brandas e humanas. Em vez de longas jornadas em hospitais, foram criadas unidades em que os usuários voltam para casa todos os dias e políticas de redução de danos. Até aí ninguém discorda.


A crítica é à incapacidade desse modelo em deter os estragos causados por uma droga como o crack, predadora por natureza.Sem falar nas dificuldades inerentes à própria pedra, cuja dependência é rápida, lança o usuário no mundo da violência e na ruína física. Quando chega ao extremo – a fase de 20 pedras madrugada adentro – só resta ao dependente rastejar por uma das 530 minguadas vagas do SUS na região, distribuídas entre a Clínica Hélio Rotenberg, em Curitiba; Hospital San Julian, em Piraquara; e Hospital Adauto Botelho, em Pinhais.


Mesmo entre os que abraçaram as idéias da reforma, como o CTDia, impera um certo desconforto. “O crack chegou numa velocidade tão grande que quebrou todos os paradigmas. Cerca de 90% dos que nos procuram são usuários de pedra. E a pedra, quando vem, é para ficar. Como aplicar política de redução de danos num caso como esse?”, questiona Schardong, que administra 60 vagas em regime “semi”, em coro com outros agentes do setor.




Mosteiro carmelita abriga 60 dependentes químicos.


Espaço é mantido em silêncio por voluntários e recebe aqueles que já perderam tudo numa chácara de seis hectares, plantada entre os bairros Pinheirinho e Sítio Cercado, na Zona Sul de Curitiba.
Além da beleza da mata secundária, o lugar impressiona por um detalhe: os portões estão sempre abertos. “Põe aí que aqui ninguém fica preso”, dita frei Chico, com a fleuma que lhe é própria. Não faltam placas de inspiração religiosa espalhadas pelos espaços, como a que diz: “Ninguém aprende a amar sem contato com a fraqueza humana”. Todos trabalham na manutenção da chácara – seja na jardinagem, seja no artesanato e horta, seja produzindo tijolos, uma das fontes de subsistência do mosteiro. A rotina começa às 6 da manhã e vai até as 21 horas. Um grande sino, à moda monástica, dá conta da marcação das atividades. Mas a atividade principal é terapêutica.
Semanalmente há reuniões da comunidade, chamadas de “correção fraterna”. Às quartas-feiras, acontece o ponto alto da terapia. Uma dezena de psicólogos e pessoas devidamente treinadas para o ofício passam o dia no mosteiro fazendo “escuta”, um elemento da pedagogia da casa. Sentados nos troncos de árvore com os moradores, voluntários fazem sessões de 30 minutos de conversa, nas quais são precisamente “todo ouvidos”.


Frei Francisco Manoel de Oliveira
Casa do Servo Sofredor, Rua La Salle, 850


(41) 3349-1681. casadoservosofredor@bol.com.br


Outras:


Casa de Recuperação Nova Vida

Tratamento de dependentes com internação

Rua Amazonas Souza de Azevedo, 488

Curitiba - PR -(41) 3264 4075



Comunidade Hermon

Tratamento de dependentes com internação em chácara

Rua Santos Dumont, 2420

Colombo - PR - (41) 3359 2372



Casa de Recuperação Água da Vida - CRAVI

Rua José Serrato, 55 - Santa Cândida

Curitiba-PR - (41) 3356 6100 - http://www.cravi.org.br/



http://www.ctamorpelavida.com.br/

http://www.clinicasderecuperacao.com.br/


http://www.sobresites.com/dependencia/dependentes.htm


http://www.adroga.casadia.org/



GRUPOS DE AJUDA



http://www.alcoolicosanonimos.org.br/ A.A



http://www.na.org.br/portal/ Narcoticos Anonimos



http://www.neuroticosanonimos.org.br/

http://www.slaa.org.br/br/index.htm

http://www.dqanonimos.blogspot.com/

DROGAS - DEPRESSÃO

Ansiedade, Depressão, Pânico e Dependência Química

Em nossa experiência empírica na prática da psicoterapia de base analítica na saúde mental observamos em certos casos a intensa ligação entre as dependências químicas e o estado depressivo, seja no usuário de álcool, maconha, cocaína, pessoas viciadas em medicação, ou qualquer outra droga. A maior incidência deste processo está nos homens jovens cuja idade varia entre os 14 aos 35 anos.

Geralmente estes tentando fugir dos sintomas isolados de crises de pânico ou da depressão tendem naturalmente a migrar para o uso de drogas lícitas ou ilícitas, o que transformará todo processo em dois problemas em um só. A incidência nas mulheres é pequena em proporção aos homens dependentes químicos sendo justamente por isto que as estatísticas de depressão tendem a ser menores no público masculino, visto que eles "mascaram" a patologia que os induz ao vício. O uso de drogas tem sua ação variada. O álcool, a maconha e os calmantes inibem o sistema nervoso e tendem naturalmente a agravar os quadros de ansiedade, depressão e pânico. São buscados geralmente ou indicados visando relaxar ou tranqüilizar seu usuário contudo na prática assim que o efeito passar as crises tendem a voltar pioradas.

As drogas "estimulantes" como o crack, cocaína, e outras por sua vez geram um estado eufórico passageiro que terá ação direta na produção de adrenalina e outros hormônios mas que em contrapartida atacará o sistema nervoso assim que o efeito da mesma cesse o debilitando ainda mais. Sem a incidência de patologias como a ansiedade, depressão ou pânico o usuário destas drogas já tem como efeito colateral um estado de letargia intenso que ocorre principalmente no dia seguinte ao uso da droga.

Os calmantes nos casos de depressão e pânico da família dos benzodiazepínicos são extremamente desrecomendados por "deprimirem" o sistema nervoso. Justamente por isto foram criados os anti- depressivos e os ansiolíticos. Isto sem falar que hoje em dia o risco de dependência de calmantes é extremamente alto sendo que as estatísticas da O.M.S. apontam que estes são a segunda maior causa de dependência após o álcool em nossa sociedade. Notamos na prática que boa parte dos fatores estimulantes para o uso de uma substancia química se relacionam diretamente com a insatisfação, ansiedade, fuga da realidade, necessidade de poder, desequilíbrio ou desajuste da personalidade, ausência de limites psíquicos e imaturidade afetiva.

A ansiedade com características mórbidas induzindo a esta fuga do mundo pelo uso de uma substancia que de forma mágica levaria a um mundo de satisfação utópico. Em termos cognitivos após o uso da substancia "inebriante" a volta a realidade nua e crua conhecida em termos técnicos como a "ressaca moral" leva o usuário a buscar novamente o refúgio seguro na droga o que gradativamente faz com que aumente a freqüência de seu uso. Este processo citado anteriormente aumenta as crises de depressão após o uso da droga seja ela qual for. Se somarmos a este processo os fatores psicológicos da inserção do usuário na marginalidade, as formas escusas para conseguir a substancia, a decadência moral e financeira, e a quebra de produtividade inerente ao uso de qualquer uma destas substancias teremos aumentados os fatores estressantes do usuário e a potencialização da crise de depressão após o uso da droga. Nos casos de pânico o uso de drogas tende a rebaixar naturalmente o nível de consciência gerando um fator potencializador de crises de pânico que vão fundir se com os processos paranóicos e persecutórios, extremamente freqüentes.

O tratamento de crises de dependência misturadas com transtornos de ansiedade, depressão e pânico neste sentido terá de desenvolver se em duas frentes: quebra da dependência química em um primeiro plano e após esta quebra o tratamento da ansiedade, depressão ou pânico. A desintoxicação da droga deverá vir primeiro mesmo por que há uma tendência natural que estas outras doenças sejam apenas um sintoma da dependência. O corpo desintoxicado reagirá melhor ao tratamento medicamentoso.

Dependência seria um conjunto de fenômenos psico-fisiológicos que se desenvolvem após repetido consumo de uma substância psicoativa. Tipicamente a Dependência estaria associada à várias Circunstâncias, como por exemplo, ao desejo poderoso de tomar a droga, à dificuldade de controlar o consumo, à utilização persistente apesar das suas conseqüências nefastas, a uma maior prioridade dada ao uso da droga em detrimento de outras atividades e obrigações, a um aumento da tolerância pela droga e por vezes e, finalmente, associado a um estado de abstinência quando de sua privação. A Síndrome de Dependência pode dizer respeito a uma substância psicoativa específica (por exemplo, o fumo, o álcool ou o diazepam), a uma categoria de substâncias psicoativas (por exemplo, substâncias opiáceas) ou a um conjunto mais vasto de substâncias farmacologicamente diferentes.

A característica essencial da Dependência de Substância é a presença de um agrupamento de sintomas psico-fisiológicos indicando que o indivíduo continua utilizando uma substância, apesar de problemas significativos relacionados a ela. Existe um padrão de auto-administração repetida que geralmente resulta em tolerância, abstinência e comportamento compulsivo de consumo da droga. Um diagnóstico de Dependência de Substância pode ser aplicado a qualquer classe de substâncias, exceto à cafeína. Os sintomas de Dependência são similares entre as várias categorias de substâncias, mas, para certas classes, alguns sintomas são menos salientes e, em alguns casos, nem todos os sintomas se manifestam.
Fonte: www.olhosalma.com.br

Drogas - Animais

Uma série de estudos já demonstraram que animais de laboratório ficam rapidamente viciados em drogas como cocaína e nicotina , mas não conseguiam deixá-los viciados em maconha.Até agora.
Um grupo de pesquisadores do National Institutes of Health (NIH) dos EUA não só conseguiu deixar macacos viciados em maconha, como também explica porque outros cientistas não conseguiram.O teste padrão para determinar se uma substância gera dependência é a auto-administração. O animal tem um catéter inserido na veia, e cada vez que aperta uma barra na gaiola, recebe uma injeção da substância.
Ratos e macacos gostam de apertar barras e botões por natureza, principalmente quando são novidade na gaiola, mas logo deixam pra lá quando nada de interessante acontece em seguida. Ou continuam apertando, se isso tiver conseqüências interessantes como fazer aparecerem pedacinhos de comida ou água. Ou disparar a injeção de drogas como a cocaína: os animais ficam rapidamente viciados, e continuam apertando a barra enquanto podem.Foi nesse teste que outros pesquisadores vinham tendo dificuldade em provocar o vício com a maconha; os bichinhos não buscavam repetir a dose.
Pensando nisso, o grupo de Steven Goldberg, no NIH, usou de uma artimanha: usar cocaína primeiro para deixar alguns macacos viciadões, depois retirar a droga, e ver se a maconha servia de substituta.Para complicar a tarefa e deixar bem claro que era necessário se esforçar para conseguir a droga, eles modificaram o protocolo de auto-estimulação. Ao contrário de outros estudos, agora não bastava apertar a barra uma vez só; os animais somente recebiam a droga depois de abaixarem a barra dez vezes seguidas.
Para evitar overdose, cada sessão durava só uma hora por dia, e após cada injeção a barra não funcionava mais durante um minuto, enquanto as luzes se apagavam na sala (pro bichinho curtir a viagem, talvez...)
Depois dos animais ficarem exímios na auto-estimulação, conseguindo 40 injeções de cocaína em uma hora - praticamente o máximo possível -, os pesquisadores trocavam a cocaína por soro fisiológico, durante uma semana inteira.
Decepção para os pobres macaquinhos: apertar a barra não dava mais barato, e dentro de alguns dias eles se injetavam com o soro apenas umas quatro vezes por hora.
E então Goldberg colocou canabinol, o princípio ativo da maconha, no lugar do soro fisiológico que os macaquinhos recebiam. Mas com dois truques, que outros pesquisadores não tentaram. O canabinol se dissolve muito mal em água, e a maior parte fica em suspensão, aglomerada.
Para compensar, estudos anteriores usaram concentrações muito elevadas de canabinol - tão elevadas que, na opinião de Golberg, acabavam deixando os animais tão chapados com uma única injeção que eles não conseguiam juntar forças para apertar a barra de novo. Daí parecer que eles não buscavam a auto-estimulação.Goldberg, ao contrário, preparou uma solução bem límpida de canabinol, usando minúsculas concentrações de álcool e detergente para dissolver a droga. E além disso, deixou a solução bem fraquinha em canabinol, em doses semelhantes às usadas com fins medicinais.Foi só trocar o soro pelo canabinol que os macacos imediatamente voltaram a se auto-injetar entre 30 e 40 vezes por sessão.
Para garantir que não era efeito do álcool e do detergente usados na diluição, Goldberg testou em seguida uma solução dessas substâncias, mas sem o canabinol. E os macacos se desinteressaram novamente.Se for verdade, é um balde de água fria nos militantes pela legalização. Que, obviamente, já se manifestaram, alegando que os resultados vão contra o senso comum e contra tantos outros estudos anteriores que fica parecendo que o NIH está tentando de qualquer maneira justificar seus "excessos" na proibição do uso da maconha nos EUA.
Verdade seja dita, agora que Goldberg acertou na dose e na diluição do canabinol, é preciso repetir o experimento com macacos "caretas" e determinar se o canabinol, sozinho, leva os bichinhos ao vício.
Essa não é a primeira vez que se sugere que a maconha não é tão diferente de cocaína e similares como se pensava. Depois de outro tanto de discussão e controvérsia, já ficou claro que a maconha, como as outras drogas, também age no sistema de recompensa do cérebro. Quando estimulado diretamente, esse sistema produz sensações de prazer e euforia no homem. É também ele que se habitua com a droga, fazendo com que a pessoa ou o animal busque se drogar cada vez mais para conseguir o mesmo efeito.
E depois, não será somente uma questão de viciar ou não que vai determinar a liberação da maconha - se fosse assim, os cigarros já estariam nas mãos de traficantes, e não de padarias e botequins.
A maconha tem seu lado útil, por acabar com a náusea e com a dor, e por isso às vezes é usada em casos terminais de câncer, por exemplo.
Mas também tem seus efeitos nocivos à saúde. E indesejáveis para os vizinhos. Além de ficar com o coração acelerado, chegando a 160 batidas por minuto, quem fuma maconha se fecha ao redor de suas próprias sensações, que podem parecer mais fortes e nítidas, como o som da música, mas se desliga das pessoas ao redor. A maconha também impede a formação de novas memórias, e pode causar tanto acessos de riso quanto crises de pânico e paranóia. Além de deixar o usuário incapaz de dirigir com segurança. Quer dizer: a viagem pode até parecer legal pro dono do cérebro dopado, mas aturar gente chapada pode ser muito chato. E perigoso. Pena que quem está chapado não consegue entender isso.

Fonte:G Tanda, P Munzar & SR Goldberg (2000). Self-administration behavior is maintained by the psychoactive ingredient of marijuana in squirrel monkeys. Nature Neuroscience

terça-feira, 28 de abril de 2009

DROGAS-POESIA-Realidade Cruel
Depoimento De Um Viciado

São 2 da manhã ,e eu de calça e blusa
O tempo frio, do céu cai chuva
Eu sou sozinho parceiro e é foda
Com meu destino ninguém mais se importa
Chegar, ao ponto que eu cheguei é lamentável
Estado físico inacreditável eu sinto crise
Eu sinto convulsão, é muito triste o meu estado sangue bom
30 quilos mais magro vai vendo
O resultado é pura essência do veneno
O vício tira a calma, a cabreragem me acelera
O demônio rouba a alma, o inferno me seqüestra
Cadê a luz que vem lá do céu
Cadê Jesus pra julgar mais este réu
Tenho vontade de morrer constantemente
O descontrole da mente me deixa impaciente e é foda
Eu saio que nem louco pela rua
Único mano é o cano na cintura
Eu preferia ta falando de amor
Falando das crianças e não da minha dor
Mas eu sou o espelho da agonia de um homem
Sem identidade, caráter, sem nome
Sem Mercedes, Audi ou Mitsubish
Consumidor da praga do apocalipse
Tão jovem sem esperança de vida
Tão novo e já suicida
São 2 da manhã e faz chuva
O pesadelo ainda continua...
Um dia frio
Um bom lugar pra ler um livro
E o pensamento lá em você
Eu sem você não vivo (depoimento de um viciado)
Eu comecei de forma curiosa
Um cigarro de maconha não era droga
Era o que todo mundo me falava
Experimentei nem eu mesmo acreditava
Primeira vez, outra sensação
Segunda vez mó barato ilusão
Mundo dos sonhos, me sinto mais leve
Enquanto isso meus neurônios fervem
Sentia fome, sentia a viagem inteira
Observava de longe as paisagens
A fumaça me deixava cada vez mais louco
Sem perceber eu já era o próprio demônio
Segundo passo, veio a cocaína
Morava com a minha mãe, me lembro da minha mina feliz
Cheirava comigo sem parar
2 loucos 24 horas no ar
Parei com estudo, perdi até o trampo
Ganhei o mundo e uma desilusão e tanto
Perdi a minha própria mãe, que trauma!
Morreu de desgosto por minha causa
Nem assim eu consegui parar vich!
Só a morte pode me libertar
Eu roubava pra sobreviver ou melhor
Pra manter o vício e não morrer, que dó
Suicídio lento era o processo
Eu nunca fui estrela, eu nunca fui sucesso
Contaminado HIV positivo
Qual a diferença do inimigo pro perigo
Aí, são 2 da manhã e faz chuva
Pesadelo ainda continua
Continua ladrão, o pesadelo ainda continua...
Um dia frio
Um bom lugar pra ler um livro
E o pensamento lá em você
Eu sem você não vivo (depoimento
de um viciado)

Amigo, aí , eu falei esta palavra
Me desculpa foi erro, não pega nada
Eu nunca tive amigo nessa porra
Só prejuízo na vida de ponta a ponta
Mas quem vai se importar, eu sou apenas mais um
Aidético viciado, infelizmente comum
Mais um entre mil ou um milhão ladrão
Escravo desta triste detenção
Eu não sou Rafael e nem a Vera Fischer
A minha história parceiro é mais triste
Eu nunca engoli escova de cabelo

Mas já matei pelo crack e por dinheiro
Puta que pariu, o inferno me chama
Quem sabe lá eu consigo a fama ou o drama
Ou a lama de fogo eterno
Condenado a escuridão do inferno
Hoje, eu sou louco de intensa coragem
Com o ferro a favor do crack
Não sei se a malandragem é minisérie ou história
Mais sei, que a carreira parceiro é sem glória
Vou tentar não matar mais ninguém
Chega de ser refém, eu preciso é do bem
Vou entregar a Deus a minha vida
Vou acreditar nas palavras da bíblia
Arrependido de todos os pecados
Ter conseguido escapar do diabo

Espero que a minha história sirva de exemplo
Pra quem tá começando, parceiro como eu comecei
Que se afaste das drogas enquanto é tempo
Pra não provar do veneno que eu provei
É embaçado sangue bom, vai por mim
Tudo nesta vida tem um fim
São 2 da manhã faz chuva
Eu vou orar pela minha
alma e pela sua
É madrugada faz chuva
Eu vou orar pela minha alma e pela sua...
Um dia frio
Um bom lugar pra ler um livro
E o pensamento lá em você
Eu sem você não vivo (depoimento de um viciado)


O crack é uma mistura de cloridrato de cocaína (cocaína em pó), bicarbonato de sódio ou amónia e água destilada, que resulta em pequeninos grãos, fumados em cachimbos.


É mais barato que a cocaína mas, como seu efeito dura muito pouco, acaba sendo usado em maiores quantidades, o que torna o vício muito caro, pois seu consumo passa a ser maior.Estimulante seis vezes mais potente que a cocaína, o crack provoca dependência física e leva à morte por sua acção fulminante sobre o sistema nervoso central e cardíaco.


O crack leva 15 segundos para chegar ao cérebro e já começa a produzir seus efeitos: forte aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, suor intenso, tremor muscular e excitação acentuada, sensações de aparente bem-estar, aumento da capacidade física e mental, indiferença à dor e ao cansaço. Mas, se os prazeres físicos e psíquicos chegam rápido com uma pedra de crack, os sintomas da síndrome de abstinência também não demoram a chegar.


Em 15 minutos, surge de novo a necessidade de inalar a fumaça de outra pedra, caso contrário chegarão inevitavelmente o desgaste físico, a prostração e a depressão profunda.


Estudiosos como o farmacologista Dr. F. Varella de Carvalho asseguram que "todo usuário de crack é um candidato à morte", porque ele pode provocar lesões cerebrais irreversíveis por causa de sua concentração no sistema nervoso central.
As pessoas que o experimentam sentem uma compulsão ( desejo incontrolável) de usá-lo de novo, estabelecendo rapidamente uma dependência física, pois querem manter o organismo em ritmo acelerado.


As estatísticas do Denarc ( Departamento Estadual de Investigação sobre Narcóticos) indicam que, em Janeiro de 1992, dos 41 usuários que procuraram ajuda no Denarc, 10% usavam crack e, em Fevereiro desse mesmo ano, dos 147 usuários, já eram 20%. Esses usuários, em sua maioria, têm entre 15 e 25 anos de idade e vêm tanto de bairros pobres da periferia como de ricas mansões de bairros nobres.


Como o crack é uma das drogas de mais altos poderes viciantes, a pessoa, só de experimentar, pode tornar-se um viciado. Ele não é, porém, das primeiras drogas que alguém experimenta. De um modo geral, o seu usuário já usa outras, principalmente cocaína, e passa a utilizar o crack por curiosidade, para sentir efeitos mais fortes, ou ainda por falta de dinheiro, já que ele é bem mais barato por grama do que a cocaína. Todavia, como o efeito do crack passa muito depressa, e o sofrimento por sua ausência no corpo vem em 15 minutos, o usuário usa-o em maior quantidade, fazendo gastos ainda maiores do que já vinha fazendo.


Para conseguir, então, sustentar esse vício, as pessoas começam a usar qualquer método para comprá-lo. Submetidas às pressões do traficante e do próprio vício, já não dispõem de tempo para ganhar dinheiro honestamente; partem, portanto, para a ilegalidade: tráfico de drogas, aliciamento de novas pessoas para a droga, roubos, assaltos, etc.



segunda-feira, 27 de abril de 2009

DROGAS-Novelas Curitibanas

Reportagem da Gazeta do Povo circula oito horas consecutivas pelos bairros Tatuquara, Sítio Cercado e Cajuru, em busca das relações entre pobreza, drogadição e violência. Os mais pobres moram longe e estão mais expostos à criminalidade e ao tráfico.


A pobreza, a violência e o comércio de drogas em Curitiba andam juntas. Os bairros que registram o maior número de mortes violentas e o maior número de apreensões de drogas são aqueles onde a renda média das famílias é das menores de toda a capital. As regiões mais ricas da capital, que são alvo de furtos e roubos, ao menos não registram casos de mortes violentas.
Mas o quadro geral é desolador: 43 mil famílias de Curitiba (dado de 2000) viviam na pobreza, isto é, tinham menos de meio salário mínimo de renda mensal.
Que o crack é altamente viciante não é segredo. O dado surpreendente é que a imensa maioria dos homicídios na capital paranaense está ligada a essa droga. Segundo Almeri Kochinski, delegado adjunto da divisão de policia especializada, o uso e o tráfico de drogas estão ligados a homicídio, furtos, espancamentos e assaltos. E o maior vilão, como desencadeador de violência, é o crack. "Viciados em crack estão envolvidos em 80% a 90% dos homicídios ocorridos na grande Curitiba", afirma.
Para o delegado, de todas as drogas, essa é a mais vinculada à violência e com maior poder viciante. "Portanto, para sustentar o vício e satisfazer a incontrolável necessidade da droga, os usuários adotam qualquer método que lhes renda dinheiro para comprar crack", afirma.
Embora se perceba nos últimos anos alguma mudança no perfil do usuário, o delegado relata que o crack continua sendo a droga mais difundida entre classes baixas, devido ao preço. "Nas classes mais favorecidas é mais comum vermos usuários de cocaína, LSD e ecstasy".
“Os pobres têm de viver neste quinto dos infernos. Botaram a gente aqui neste fim de mundo”, grita a anônima do Moradias Monteiro Lobato, Tatuquara, às 10 horas de quarta-feira. Ela é muito magra, negra, carrega uma criança e amaldiçoa o vento que parece só agravar o maior problema da região: o mau cheiro. É um enigma. Uns dizem que vem da estação de tratamento de esgoto da Sanepar, da qual a vila é vizinha mais próxima do que recomendaria o bom senso. Outros culpam o setor industrial de Araucária – que pode ser visto por detrás da mata, com suas torres gigantescas e labaredas de fogo na ponta. É bonito de ver, mas não é o paraíso.
Se as estatísticas estiverem corretas, o Tatuquara é o bairro mais pobre de Curitiba. Tem quase 50 mil moradores e crescimento de 3,8% ao ano. Sua renda média em 2008 é de R$ 809,93, a terceira mais baixa dentre os 75 bairros da cidade, o que acaba agravado por outras características: 35% dos tatuquarenses são crianças. Entre os adultos, o analfabetismo funcional beira os 25%. Outra particularidade é que 31,5% da população do Tatuquara é negra.

Comparado ao 23 de agosto – área de ocupação no Ganchinho – o Tatuquara não é o pior dos mundos. É recente e está sendo urbanizado. A questão é outra: é melhor ser pobre em outras regiões de Curitiba do que ali. Basta um argumento: o bairro tem 2,5 mil estabelecimentos comerciais, quatro vezes menos do que o vizinho Sítio Cercado. Para quem vive de catar papel – atividade comum na região – é como procurar água no deserto. Encontrar emprego perto de casa, idem.
É o caso da família de carrinheiro Manoel da Silva, 58 anos, pai de quatro filhos, cinco meses de bairro. Antes disso, fazia parte das 30 famílias que viviam na Sociedade Barracão, a favela-pocket do Uberaba. Habilitou-se a sair do local e entrar no financiamento de uma casa popular. Foi como chegou ao Tatuquara, mas não há meio de ele e a mulher, Zilda, saírem do minguado orçamento de R$ 120 do Bolsa Família. “Aqui a gente não tira nada com o papel”, explica a mulher.
O casal pensa em se favelizar novamente, numa área mais comercial, de modo a evitar que os filhos passem fome. No Uberaba, além dos rendimentos com o carrinho, haviam as doações dos vizinhos arremediados. Agora, nem isso. Eis a encruzilhada, que aponta para o nó da pobreza. A casa pode até ser de alvenaria e ter quintal, mas sem programas de geração de renda, não tem foto de gente feliz no álbum de retratos.
No Sítio Cercado, a situação se inverte. Ali, Curitiba não é tão modesta quanto no Tatuquara, porém é mais violenta. Com 115 mil habitantes, a área tinha tudo para ser um Eldorado municipal. Não há quem não se impressione ao cruzar a esquina das ruas Izaac Ferreira da Cruz com a São José dos Pinhais, por onde se espalha a maior parte dos 11,4 mil estabelecimentos comerciais da região.
Mas para tristeza geral, o Sítio ficou famoso apenas nas páginas policiais. Só neste semestre foram 46 mortes violentas. “Muitos comerciantes desistem de vir para cá por causa dessas notícias”, lamenta o líder comunitário Jurandir Ferreira, o Alicate.
A região é de fato uma chaleira fervendo. Reza a lenda existirem 100 associações de bairro por ali. Arrisca ser a maior concentração planetária do gênero. Por extensão, não existe na cidade local onde a campanha eleitoral esteja mais animada. A segurança, claro, é a grande bandeira de todas as facções, mas não a única.
Na divisa do Sítio com o Pinheirinho, na Casa do Servo Sofredor, há quem concorde com a tese do líder comunitário. Ali, onde 120 internos, a maioria jovens, são abrigados para tratar dependência química, a voluntária Sueli Maria Borges, 57 anos, fala de cadeira. Há dois anos ela faz terapia da escuta com os rapazes da casa. Seu trabalho é ouvir, de modo que eles possam organizar suas perdas e danos. “Não acredito que a pobreza seja a única causa da drogadição. As histórias desses jovens são histórias de abandono, da família e da sociedade”, defende.
À frente da Secretaria Especial Antidrogas, Fernando Francischini faz um arrazoado de todas as posições recolhidas entre os entrevistados. “A pobreza não explica 100% o problema das drogas em Curitiba. A escolaridade também não”, analisa. Ele aponta para um argumento clássico – a posição da capital na rota Foz do Iguaçu-Paranaguá – e outro nem tanto. “Aqui, a prevenção e a repressão nunca caminharam juntas. Tem de haver um planejamento estratégico entre os dois setores”, defende, mas sem deixar de reconhecer a máxima dos setores especializados: “Tenho certeza absoluta de que o tráfico e a violência estão associados.”
O bairro do Cajuru – última parada da viagem – serve de estudo de caso. Com quase 100 mil habitantes, ostentou 59 mortes violentas desde o início do ano, o maior índice da capital. Os problemas estão concentrados entre o Rio Atuba e a linha do trem. Ali, o bolsão de criminalidade se confunde com o de miséria, formando uma linha que passa pela vilas Autódromo, Reno, União, Icaraí e Audi.
Nesses locais, além da geografia de barracos e becos, impera o silêncio. Em lugares como o Marumbi há toques de recolher. Nos dois parques beira-rio, o Nacional e o Linear, não se vê crianças brincando.
Dados x complexidade
O cruzamento de dados mostra uma triste realidade. Os bairros que estão no andar de baixo da escala de renda são os mesmos onde ocorrem o maior número de mortes violentas da capital. E muitos deles figuram ainda como protagonistas nas operações policiais de apreensão de drogas. Mas esses números, dizem os especialistas, fazem bonito nas planilhas e não tanto na vida real. Eles são insuficientes para explicar as relações complexas que existem entre pobreza, violência, tráfico e consumo de drogas.
O mapa do crime continua o mesmo do ano passado. Os bairros Cajuru, Cidade Industrial de Curitiba, Sítio Cercado, Uberaba e Tatuquara, que em 2007 concentraram 60% dos homicídios da capital de acordo com dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública, continuam no topo do ranking em 2008. Com exceção do Uberaba, os outros quatro estão na lista das maiores apreensões de crack.
De acordo com a pesquisadora Joyce Pescarolo, do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da UFPR, não é a pobreza, e sim a desigualdade social que deve ser considerada vilã. Quando os integrantes da classe mais rica e da classe mais pobre se vêem como estranhos, há a possibilidade de um comete
r violência contra o outro, pois eles não se identificam, não há empatia. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que o número de pobres do Brasil diminui nos últimos anos, mas os dados municipais mais recentes não são alentadores.
Os 20% curitibanos mais ricos se apropriaram de 63,6% de toda a renda gerada pela cidade em 2000, quase cinco pontos porcentuais a mais do que uma década antes.
Enquanto isso, aqueles que mais precisavam viram sua situação piorar: os 40% mais pobres ficaram com apenas 8,3% da renda, contra 10,1% no levantamento de 1991.
Joyce diz não concordar com generalizações do tipo que a droga gera violência, mas, que no caso do crack, droga cujo consumo e apreensão tem crescido em Curitiba, a afirmação pode ser verdadeira.
O pesquisador Felipe Zilli, do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública, de Minas Gerais, explica porque isso ocorre: “O crack gera uma dinâmica muito mais violenta que as outras drogas. O usuário tem a necessidade de consumo constante, e essa constância acaba gerando muitos conflitos com o fornecedor e entre usuários.”
O coronel Jorge Costa, coordenador do Narcodenúncia, detalha essa dinâmica cruel. “O viciado em crack acaba gastando todo seu dinheiro para comprar pedra. Depois ele passa a roubar da família. Quando os familiares começam a esconder as coisas dele, o viciado vai para a rua.” Segundo o coronel, os crimes têm uma forte relação com as drogas. Ou se comete violência sob o efeito de um entorpecente ou para comprar um. Aqui Joyce discorda. “A droga não vai mudar totalmente a personalidade de uma pessoa e fazer com que ela mate alguém, a não ser que haja uma predisposição.” O remédio, ou seja, a repressão, dizem todos eles, não terá muita utilidade se o poder público não oferecer infra-estrutura, opções de lazer e de qualificação profissional.




Concentração
Cerca de metade da população Curitiba, 45,44%, está concentrada em dez bairros: Xaxim, Boqueirão, Alto Boqueirão, Cidade Industrial, Cajuru, Água Verde, Portão,Sítio Cercado, Uberaba e Pinheirinho. Os que possuem maior densidade demográfiica, ou seja, maior número de pessoas por hectare, são a Água Verde, com 111,73, a Vila Izabel, com 105, 53, e o Sítio Cercado, com 103,32.
Os violentos
De acordo com dados oficiais da Secretaria de Estado de Segurança Pública, em 2007 Curitiba registrou 589 homicídios. Cerca de 60% dos crimes se concentram em cinco bairros – Sítio Cercado, CIC, Uberaba, Cajuru e Tatuquara. Dados levantados a partir de boletins do IML, de janeiro a agosto deste ano, já têm registrados 583 homicídios.

Os pobres
Dados do Observatório das Metrópoles revelam que o Núcleo Metropolitano – área dos municípios próximos a Curitiba – concentra 75% dos pobres da região. Desses, 40% vivem na capital. O número equivaleria a 42,6 mil famílias.


Os dependentes
A associação entre tráfico e violência é controversa, pois pode levar à marginalização do usuário. Mas é adotada pelos estudiosos de segurança pública. De acordo com a Sesp, 80% da criminalidade em Curitiba está relacionada ao tráfico.


Em baixa
A desigualdade social de Curitiba é gritante e já foi indicada por estudos nacionais, como o Mapa do Crime, da Ritla. Compare: a renda média do Batel é de R$ 8.972, dez vezes mais do que a do Tatuquara.


Em alta
Bairros como Sítio Cercado, onde a renda é baixa e a criminalidade é alta, têm a seu favor uma economia aquecida. No Sítio há cerca de 11,4 mil estabelecimentos comerciais, apontando perspectivas para os moradores.


Participaram desta reportagem o sociólogo Felipe Zilli, a psicóloga Joyce Pescarolo, o policial militar coronel Jorge Costa e o bacharel em Direito Fernando Francischini.


“Curitiba fez opção pela repressão ao usuário e não ao traficante. A polícia sabe onde estão as bocas. Desafio quem quiser. O mundo do crack é organizado. Confusos estamos nós


Pesquisa
O pesquisador Marcelo Ribeiro de Araújo, em 2001, acompanhou 131 dependentes de crack internados em clínica de reabilitação: 60% morreram assassinados, 10% morreram de overdose e 26,1% em decorrência da aids. A idade média das vítimas era 27 anos. A pesquisa de Araújo é a única disponível.

Problema.
Os cadastros de hospitais não indicam se o paciente é usuário ou se chegou ao pronto-socorro alterado pelo uso de drogas. A ausência dessa informação remete para um problema maior: sem os índices de mortalidade tem-se dificuldade de criar programas de prevenção e de saúde púbica em geral das vítimas do crack.
Os índices de mortalidade provocados pelo crack são uma incógnita, o que se tem são dados empíricos: morre-se pouco de overdose e muito da violência relacionada às drogas.
Os depoimentos recolhidos durante a reportagem não escondem: há quem mate por cinco pedras; e quem seja morto por dever dinheiro ao “patrão”. Em suma, crack se confunde com o número de homicídios. O levantamento junto a hospitais e ao IML apontou outro


Seis pessoas são executadas na zona sul de Curitiba
Seis pessoas foram mortas anteontem à noite em uma chacina no bairro do Xaxim, zona sul de Curitiba. As vítimas não eram parentes. Elas foram surpreendidas por três homens encapuzados dentro de uma casa usada como ponto de venda e uso de drogas, na Rua Deputado Benedito Lúcio Machado, por volta da meia-noite.
As primeiras investigações revelam que outros dois homens ficaram na esquina, dando cobertura para a ação. Enquanto isso, as pessoas foram obrigadas a deitar no chão, de costas, sendo executadas com dois ou três tiros na cabeça.

13 chacinas
A chacina do Xaxim é a 13ª registrada nos últimos cinco anos no estado, elevando para 71 o número de pessoas mortas nesse tipo de crime no Paraná. Desde o início do ano passado foram oito massacres, com 44 mortos, quase todos ocorridos na região metropolitana de Curitiba – a única exceção foi a chacina de Guaíra, com 15 vítimas, em setembro de 2008.




DROGAS - ESCRAVIDÃO

Usuários de crack se sentem escravizados pela droga

O começo do vício é sempre parecido. Primeiro é o consumo de maconha, depois vem a cocaína. O crack é o próximo passo. Ele não escolhe cor, gênero, classe social ou religião. Com poder avassalador, invadiu a sociedade, quebrou regras, transpôs limites e escravizou milhares de pessoas.Há pessoas que acreditam ser mais fortes que o vício.

Marcela, 30 anos, que usou crack por seis meses, é um exemplo. “Quando eu comecei, na primeira noite, pensei que fosse ter controle sobre isso, como eu tinha sobre a cocaína. Mas vi que, na segunda semana, já tinha perdido completamente o domínio, porque fazia isso 24 horas por dia”, diz.

De família de classe média do Rio Grande do Sul e mãe de duas meninas, ela começou a consumir crack após a morte da mãe. “Minha família estava passando por uma turbulência e me aproveitei muito disso”, afirma. Marcela não estava sozinha, pois a irmã era sua companheira de uso, inclusive, era ela quem fazia o contato com traficantes. A compulsão pela droga era tão grande que Marcela desfalcou a empresa do pai, na qual também trabalhava, para comprar crack.

Rodrigo, 34 anos, morador de uma favela de São Paulo, usou crack por quatro anos, o suficiente para levá-lo ao “fundo do poço”. Para conseguir a droga, ele roubava o dinheiro do comércio da mãe. “Ela tem um barzinho, e eu pegava muito dinheiro do caixa. Às vezes, ela tinha dinheiro no cofre e eu furtava para usar drogas”, disse.

Rodrigo afirma que o efeito de apenas 15 segundos provoca sensações de poder e êxtase aos usuários. “O crack tem um poder muito grande de vício. Ele dá um prazer ilusório, dá vontade de querer sempre mais. É nessa vontade que você larga tudo de lado.”O crack é descrito pelos usuários como uma “droga egoísta”.

Dependentes deixam aos poucos o convívio familiar, amigos e trabalho. Isolam-se. Até os companheiros de uso são abandonados. A vida social passa a não existir mais. E as alucinações provocadas pela paranóia pós-droga começam a atormentar. “O pânico com o crack é maior. Você se sente perseguido. Seus amigos e conhecidos parecem que viram seus inimigos”, revela Carla, 30 anos, que experimentou a droga em Brasília aos 28.

O grito por socorro vem quando existe uma consciência da própria desmoralização. Os usuários entendem a realidade e, principalmente, o motivo que a levou ao consumo. “O que me fez buscar o tratamento foi a dor de perder o caráter. Perdi mulher, filhos, trabalho, amigos”, disse Maurício, 31 anos, ex-usuário em tratamento em Brasília. A recuperação é difícil. Exige acima de tudo determinação.

Henrique França, coordenador de uma comunidade terapêutica em Brasília, acredita que a vontade de se recuperar tem de partir do próprio usuário. “Se alguém nos pede e deseja sinceramente se livrar das drogas, o problema dele passa a ser nosso. Se não quer, a gente não pode fazer nada”, argumenta.Existem pessoas que não conseguem se livrar do vício com apenas uma internação.

É o caso do sul-mato-grossense Felipe, 32 anos, que começou a usar crack em Salvador há sete anos. Ele já foi internado 15 vezes. “Já andei o Brasil inteiro, já usei droga no país inteiro. Fui internado em São Paulo, Manaus, Recife. Não sei nem como consigo, hoje, depois de tudo que fiz, trocar idéias, fazer coisas.”Durante a última internação, Felipe disse que não consegue mais consumir crack sem se sentir culpado.

“Quando a vontade é muito forte e eu vejo que não vou conseguir segurar, eu me interno, procuro ajuda porque eu tenho que começar de novo. Eu fico espantado, de vez em quando eu tenho esses pensamentos.”
Cracolândia

"Não existe mais a velha cracolândia deteriorada, a serviço da droga, a serviço do crime. Cada vez mais essa é uma página virada na história de São Paulo",
afirmou o prefeito Gilberto Kassab em outubro de 2007.
Mas o vale-tudo das drogas não acabou, só mudou de endereço. A menos de 800 metros do antigo ponto de encontro de usuários e traficantes fica o atual território livre do crack. "Eles fizeram uma operação para higienizar, ou seja, eles expulsaram os meninos de lá e esses meninos fizeram o quê? Foram para a rua transversal ou para outra rua", argumenta Lúcia Pinheiro, coordenadora-geral da Fundação Projeto Travessia. "Hoje já está disseminado e não há mais controle", alerta.

Enquanto isso!!!, dezenas de dependentes continuam a vagar como zumbis pelo centro de São Paulo, agora mesmo, a luz do dia, ou mais tarde em mais uma noite de pesadelo.

Da Agência Brasil

ESCRAVOS

Um rapaz de 16 anos foi acorrentado à cama em Caxia do Sul (RS) pela própria mãe. Ela disse que acorrentou o filho para tentar livrá-lo das drogas. Segundo a mãe, o adolescente é usuário de crack e já fugiu várias vezes de uma clínica de recuperação onde havia sido internado. "Se acharem que devo ir presa, eu vou, mas quero ver ele vivo, estudando e trabalhando", afirmou.

Mãe acorrentou o filho de 15 anos à cama em Passo Fundo (RS). Segundo ela, o adolescente é viciado em crack e já furtou eletrodomésticos e outros bens para sustentar o consumo da droga. Ela já procurou órgãos para recuperar o filho, mas o garoto teria reagido com violência e agredido os pais.

Um menino de 11 anos foi acorrentado pelos próprios pais na Zona Norte de Porto Alegre (RS). Segundo reportagem do "Diário Gaúcho", os pais disseram que é a segunda vez que a medida é tomada para evitar que a criança, viciada em crack, fuja para comprar droga. Os pais afirmam que o menino é dependente há quase um ano. Ele estaria ameaçado de morte na vizinhança da vila onde mora, por cometer furtos com freqüência para comprar crack.

Uma empregada doméstica manteve o filho de 17 anos acorrentado dentro de casa em Feira de Santana (BA). O adolescente, que é usuário de drogas, ficava 24 horas preso por correntes nos pés. À polícia, a mulher teria afirmado que tinha medo do filho ser morto por traficantes

Uma mãe acorrentou seu filho de apenas 15 anos, em Araraquara, após descobrir que ele é dependente de Crack. A descoberta tinha ocorrido 4 meses antes da ação, mas a mãe achava que o jovem era usuário só de maconha até que um dia o filho furtou uma bicicleta e chegou em casa sob o efeito da droga e contou que fumava até 20 pedras de crack por dia. A mãe, então, tomou a atitude que, segundo ela era para evitar coisas piores, como a morte do filho.