segunda-feira, 27 de abril de 2009

DROGAS-Novelas Curitibanas

Reportagem da Gazeta do Povo circula oito horas consecutivas pelos bairros Tatuquara, Sítio Cercado e Cajuru, em busca das relações entre pobreza, drogadição e violência. Os mais pobres moram longe e estão mais expostos à criminalidade e ao tráfico.


A pobreza, a violência e o comércio de drogas em Curitiba andam juntas. Os bairros que registram o maior número de mortes violentas e o maior número de apreensões de drogas são aqueles onde a renda média das famílias é das menores de toda a capital. As regiões mais ricas da capital, que são alvo de furtos e roubos, ao menos não registram casos de mortes violentas.
Mas o quadro geral é desolador: 43 mil famílias de Curitiba (dado de 2000) viviam na pobreza, isto é, tinham menos de meio salário mínimo de renda mensal.
Que o crack é altamente viciante não é segredo. O dado surpreendente é que a imensa maioria dos homicídios na capital paranaense está ligada a essa droga. Segundo Almeri Kochinski, delegado adjunto da divisão de policia especializada, o uso e o tráfico de drogas estão ligados a homicídio, furtos, espancamentos e assaltos. E o maior vilão, como desencadeador de violência, é o crack. "Viciados em crack estão envolvidos em 80% a 90% dos homicídios ocorridos na grande Curitiba", afirma.
Para o delegado, de todas as drogas, essa é a mais vinculada à violência e com maior poder viciante. "Portanto, para sustentar o vício e satisfazer a incontrolável necessidade da droga, os usuários adotam qualquer método que lhes renda dinheiro para comprar crack", afirma.
Embora se perceba nos últimos anos alguma mudança no perfil do usuário, o delegado relata que o crack continua sendo a droga mais difundida entre classes baixas, devido ao preço. "Nas classes mais favorecidas é mais comum vermos usuários de cocaína, LSD e ecstasy".
“Os pobres têm de viver neste quinto dos infernos. Botaram a gente aqui neste fim de mundo”, grita a anônima do Moradias Monteiro Lobato, Tatuquara, às 10 horas de quarta-feira. Ela é muito magra, negra, carrega uma criança e amaldiçoa o vento que parece só agravar o maior problema da região: o mau cheiro. É um enigma. Uns dizem que vem da estação de tratamento de esgoto da Sanepar, da qual a vila é vizinha mais próxima do que recomendaria o bom senso. Outros culpam o setor industrial de Araucária – que pode ser visto por detrás da mata, com suas torres gigantescas e labaredas de fogo na ponta. É bonito de ver, mas não é o paraíso.
Se as estatísticas estiverem corretas, o Tatuquara é o bairro mais pobre de Curitiba. Tem quase 50 mil moradores e crescimento de 3,8% ao ano. Sua renda média em 2008 é de R$ 809,93, a terceira mais baixa dentre os 75 bairros da cidade, o que acaba agravado por outras características: 35% dos tatuquarenses são crianças. Entre os adultos, o analfabetismo funcional beira os 25%. Outra particularidade é que 31,5% da população do Tatuquara é negra.

Comparado ao 23 de agosto – área de ocupação no Ganchinho – o Tatuquara não é o pior dos mundos. É recente e está sendo urbanizado. A questão é outra: é melhor ser pobre em outras regiões de Curitiba do que ali. Basta um argumento: o bairro tem 2,5 mil estabelecimentos comerciais, quatro vezes menos do que o vizinho Sítio Cercado. Para quem vive de catar papel – atividade comum na região – é como procurar água no deserto. Encontrar emprego perto de casa, idem.
É o caso da família de carrinheiro Manoel da Silva, 58 anos, pai de quatro filhos, cinco meses de bairro. Antes disso, fazia parte das 30 famílias que viviam na Sociedade Barracão, a favela-pocket do Uberaba. Habilitou-se a sair do local e entrar no financiamento de uma casa popular. Foi como chegou ao Tatuquara, mas não há meio de ele e a mulher, Zilda, saírem do minguado orçamento de R$ 120 do Bolsa Família. “Aqui a gente não tira nada com o papel”, explica a mulher.
O casal pensa em se favelizar novamente, numa área mais comercial, de modo a evitar que os filhos passem fome. No Uberaba, além dos rendimentos com o carrinho, haviam as doações dos vizinhos arremediados. Agora, nem isso. Eis a encruzilhada, que aponta para o nó da pobreza. A casa pode até ser de alvenaria e ter quintal, mas sem programas de geração de renda, não tem foto de gente feliz no álbum de retratos.
No Sítio Cercado, a situação se inverte. Ali, Curitiba não é tão modesta quanto no Tatuquara, porém é mais violenta. Com 115 mil habitantes, a área tinha tudo para ser um Eldorado municipal. Não há quem não se impressione ao cruzar a esquina das ruas Izaac Ferreira da Cruz com a São José dos Pinhais, por onde se espalha a maior parte dos 11,4 mil estabelecimentos comerciais da região.
Mas para tristeza geral, o Sítio ficou famoso apenas nas páginas policiais. Só neste semestre foram 46 mortes violentas. “Muitos comerciantes desistem de vir para cá por causa dessas notícias”, lamenta o líder comunitário Jurandir Ferreira, o Alicate.
A região é de fato uma chaleira fervendo. Reza a lenda existirem 100 associações de bairro por ali. Arrisca ser a maior concentração planetária do gênero. Por extensão, não existe na cidade local onde a campanha eleitoral esteja mais animada. A segurança, claro, é a grande bandeira de todas as facções, mas não a única.
Na divisa do Sítio com o Pinheirinho, na Casa do Servo Sofredor, há quem concorde com a tese do líder comunitário. Ali, onde 120 internos, a maioria jovens, são abrigados para tratar dependência química, a voluntária Sueli Maria Borges, 57 anos, fala de cadeira. Há dois anos ela faz terapia da escuta com os rapazes da casa. Seu trabalho é ouvir, de modo que eles possam organizar suas perdas e danos. “Não acredito que a pobreza seja a única causa da drogadição. As histórias desses jovens são histórias de abandono, da família e da sociedade”, defende.
À frente da Secretaria Especial Antidrogas, Fernando Francischini faz um arrazoado de todas as posições recolhidas entre os entrevistados. “A pobreza não explica 100% o problema das drogas em Curitiba. A escolaridade também não”, analisa. Ele aponta para um argumento clássico – a posição da capital na rota Foz do Iguaçu-Paranaguá – e outro nem tanto. “Aqui, a prevenção e a repressão nunca caminharam juntas. Tem de haver um planejamento estratégico entre os dois setores”, defende, mas sem deixar de reconhecer a máxima dos setores especializados: “Tenho certeza absoluta de que o tráfico e a violência estão associados.”
O bairro do Cajuru – última parada da viagem – serve de estudo de caso. Com quase 100 mil habitantes, ostentou 59 mortes violentas desde o início do ano, o maior índice da capital. Os problemas estão concentrados entre o Rio Atuba e a linha do trem. Ali, o bolsão de criminalidade se confunde com o de miséria, formando uma linha que passa pela vilas Autódromo, Reno, União, Icaraí e Audi.
Nesses locais, além da geografia de barracos e becos, impera o silêncio. Em lugares como o Marumbi há toques de recolher. Nos dois parques beira-rio, o Nacional e o Linear, não se vê crianças brincando.
Dados x complexidade
O cruzamento de dados mostra uma triste realidade. Os bairros que estão no andar de baixo da escala de renda são os mesmos onde ocorrem o maior número de mortes violentas da capital. E muitos deles figuram ainda como protagonistas nas operações policiais de apreensão de drogas. Mas esses números, dizem os especialistas, fazem bonito nas planilhas e não tanto na vida real. Eles são insuficientes para explicar as relações complexas que existem entre pobreza, violência, tráfico e consumo de drogas.
O mapa do crime continua o mesmo do ano passado. Os bairros Cajuru, Cidade Industrial de Curitiba, Sítio Cercado, Uberaba e Tatuquara, que em 2007 concentraram 60% dos homicídios da capital de acordo com dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública, continuam no topo do ranking em 2008. Com exceção do Uberaba, os outros quatro estão na lista das maiores apreensões de crack.
De acordo com a pesquisadora Joyce Pescarolo, do Centro de Estudos em Segurança Pública e Direitos Humanos da UFPR, não é a pobreza, e sim a desigualdade social que deve ser considerada vilã. Quando os integrantes da classe mais rica e da classe mais pobre se vêem como estranhos, há a possibilidade de um comete
r violência contra o outro, pois eles não se identificam, não há empatia. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que o número de pobres do Brasil diminui nos últimos anos, mas os dados municipais mais recentes não são alentadores.
Os 20% curitibanos mais ricos se apropriaram de 63,6% de toda a renda gerada pela cidade em 2000, quase cinco pontos porcentuais a mais do que uma década antes.
Enquanto isso, aqueles que mais precisavam viram sua situação piorar: os 40% mais pobres ficaram com apenas 8,3% da renda, contra 10,1% no levantamento de 1991.
Joyce diz não concordar com generalizações do tipo que a droga gera violência, mas, que no caso do crack, droga cujo consumo e apreensão tem crescido em Curitiba, a afirmação pode ser verdadeira.
O pesquisador Felipe Zilli, do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública, de Minas Gerais, explica porque isso ocorre: “O crack gera uma dinâmica muito mais violenta que as outras drogas. O usuário tem a necessidade de consumo constante, e essa constância acaba gerando muitos conflitos com o fornecedor e entre usuários.”
O coronel Jorge Costa, coordenador do Narcodenúncia, detalha essa dinâmica cruel. “O viciado em crack acaba gastando todo seu dinheiro para comprar pedra. Depois ele passa a roubar da família. Quando os familiares começam a esconder as coisas dele, o viciado vai para a rua.” Segundo o coronel, os crimes têm uma forte relação com as drogas. Ou se comete violência sob o efeito de um entorpecente ou para comprar um. Aqui Joyce discorda. “A droga não vai mudar totalmente a personalidade de uma pessoa e fazer com que ela mate alguém, a não ser que haja uma predisposição.” O remédio, ou seja, a repressão, dizem todos eles, não terá muita utilidade se o poder público não oferecer infra-estrutura, opções de lazer e de qualificação profissional.




Concentração
Cerca de metade da população Curitiba, 45,44%, está concentrada em dez bairros: Xaxim, Boqueirão, Alto Boqueirão, Cidade Industrial, Cajuru, Água Verde, Portão,Sítio Cercado, Uberaba e Pinheirinho. Os que possuem maior densidade demográfiica, ou seja, maior número de pessoas por hectare, são a Água Verde, com 111,73, a Vila Izabel, com 105, 53, e o Sítio Cercado, com 103,32.
Os violentos
De acordo com dados oficiais da Secretaria de Estado de Segurança Pública, em 2007 Curitiba registrou 589 homicídios. Cerca de 60% dos crimes se concentram em cinco bairros – Sítio Cercado, CIC, Uberaba, Cajuru e Tatuquara. Dados levantados a partir de boletins do IML, de janeiro a agosto deste ano, já têm registrados 583 homicídios.

Os pobres
Dados do Observatório das Metrópoles revelam que o Núcleo Metropolitano – área dos municípios próximos a Curitiba – concentra 75% dos pobres da região. Desses, 40% vivem na capital. O número equivaleria a 42,6 mil famílias.


Os dependentes
A associação entre tráfico e violência é controversa, pois pode levar à marginalização do usuário. Mas é adotada pelos estudiosos de segurança pública. De acordo com a Sesp, 80% da criminalidade em Curitiba está relacionada ao tráfico.


Em baixa
A desigualdade social de Curitiba é gritante e já foi indicada por estudos nacionais, como o Mapa do Crime, da Ritla. Compare: a renda média do Batel é de R$ 8.972, dez vezes mais do que a do Tatuquara.


Em alta
Bairros como Sítio Cercado, onde a renda é baixa e a criminalidade é alta, têm a seu favor uma economia aquecida. No Sítio há cerca de 11,4 mil estabelecimentos comerciais, apontando perspectivas para os moradores.


Participaram desta reportagem o sociólogo Felipe Zilli, a psicóloga Joyce Pescarolo, o policial militar coronel Jorge Costa e o bacharel em Direito Fernando Francischini.


“Curitiba fez opção pela repressão ao usuário e não ao traficante. A polícia sabe onde estão as bocas. Desafio quem quiser. O mundo do crack é organizado. Confusos estamos nós


Pesquisa
O pesquisador Marcelo Ribeiro de Araújo, em 2001, acompanhou 131 dependentes de crack internados em clínica de reabilitação: 60% morreram assassinados, 10% morreram de overdose e 26,1% em decorrência da aids. A idade média das vítimas era 27 anos. A pesquisa de Araújo é a única disponível.

Problema.
Os cadastros de hospitais não indicam se o paciente é usuário ou se chegou ao pronto-socorro alterado pelo uso de drogas. A ausência dessa informação remete para um problema maior: sem os índices de mortalidade tem-se dificuldade de criar programas de prevenção e de saúde púbica em geral das vítimas do crack.
Os índices de mortalidade provocados pelo crack são uma incógnita, o que se tem são dados empíricos: morre-se pouco de overdose e muito da violência relacionada às drogas.
Os depoimentos recolhidos durante a reportagem não escondem: há quem mate por cinco pedras; e quem seja morto por dever dinheiro ao “patrão”. Em suma, crack se confunde com o número de homicídios. O levantamento junto a hospitais e ao IML apontou outro


Seis pessoas são executadas na zona sul de Curitiba
Seis pessoas foram mortas anteontem à noite em uma chacina no bairro do Xaxim, zona sul de Curitiba. As vítimas não eram parentes. Elas foram surpreendidas por três homens encapuzados dentro de uma casa usada como ponto de venda e uso de drogas, na Rua Deputado Benedito Lúcio Machado, por volta da meia-noite.
As primeiras investigações revelam que outros dois homens ficaram na esquina, dando cobertura para a ação. Enquanto isso, as pessoas foram obrigadas a deitar no chão, de costas, sendo executadas com dois ou três tiros na cabeça.

13 chacinas
A chacina do Xaxim é a 13ª registrada nos últimos cinco anos no estado, elevando para 71 o número de pessoas mortas nesse tipo de crime no Paraná. Desde o início do ano passado foram oito massacres, com 44 mortos, quase todos ocorridos na região metropolitana de Curitiba – a única exceção foi a chacina de Guaíra, com 15 vítimas, em setembro de 2008.



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