domingo, 4 de abril de 2010


“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor”

Sabe-se que Jesus iniciou a sua pregação certa vez na sinagoga de Nazaré, onde leu o trecho de Is 61,1s, texto em que o Servidor de Javé anuncia a sua missão de libertar os cativos e anunciar um ano de graça da parte do Senhor.

Para alguns intérpretes, este texto é fundamental na reconstrução da imagem de um “Jesus revolucionário”. G. Girardet sintetiza a sua mensagem nos seguintes termos: “A revolução está perto e aqui estou para efetuá-la” (II Vangelo della liberazione. Leitura politica di Luca. Torino 1975, p. 26).

A questão não é de todo nova. Já H. S. Reimarus (1694-1768) escreveu a obra: “Von dem Zwecke Jesu und seiner Jünger.- Desde o fim de Jesus e seus discípulos ”. Neste livro o autor afirmava que Jesus fora um agitador político desejoso de libertar do jugo romano o povo judeu. Fracassou, porém, morrendo crucificado. Diante desta derrota, os discípulos de Jesus roubaram o seu cadáver para poder dizer que Ele havia ressuscitado e deram um cunho estritamente religioso à mensagem de Jesus; este teria apregoado uma salvação espiritual destinada a todos os homens.

A tese de Reimarus na sua época não teve ressonância, pois parecia demasiado artificial. Todavia no início do século XX foi reafirmada por diversos autores como K, Kautsky, socialista, em 1908, R. Eisler em 1929-30, S.C.F. Brandon em 1967-68... Este último insiste sobre o caráter político do messianismo de Jesus, apoiando-se, por exemplo, nas palavras de Cristo referentes às duas espadas (cf. Lc 22,36s), no episódio da multiplicação dos pães (cf. Mc 6,30-44), no da entrada de Jesus em Jerusalém e no da expulsão dos vendilhões do Templo (cf. Mc 11,15-19); afirma que a mensagem de Jesus foi despolitizada pelos evangelistas movidos por razões apologéticas. S. Marcos, antes dos outros, teria apresentado um Jesus pacífico para tranqüilizar as autoridades de Roma após a queda de Jerusalém (70), insinuando assim que os cristãos seriam leais súditos do Império.

Os partidos judeus no tempo de Jesus

Na época de Cristo, o judaísmo era representado por seis facções importantes: os fariseus, os saduceus, os essênios, os herodianos, os zelotes e os sicários.

Os saduceus eram propensos a aceitar a cultura greco-romana. Conforme os escritos do Novo Testamento, eram adversários de Jesus juntamente com os fariseus; cf. Mt 22,22-33; Lc 20,20-26; At 4,1-4; 5,17. Tanto os saduceus como os fariseus eram contrários a atividades revolucionárias.

Os herodianos, a respeito dos quais pouca documentação existe, são tidos por alguns historiadores modernos como amigos de Roma – opinião esta discutida. O fato é que se opunham a Jesus, conforme Mc 3,6; 12,13.

Os essênios, aos quais provavelmente estavam filiados os monges de Qumran, eram monges que viviam em lugares retirados praticando o celibato (havia uma espécie de Ordem Terceira para casados), a pobreza e a obediência. Eram avessos ao comércio e às armas.

Quanto aos zelotas e aos sicários, eram militantes contra o domínio romano.

De 6 a 70 d.C. as condições políticas da Palestina foram altamente agitadas. Desde 63 a.C. quando o General romano Pompeu subjugou os judeus a Roma, tirando a estes o pouco de autonomia de que gozavam sob os Macabeus, o povo de Israel se achava especialmente humilhado e revoltado. Tal aversão se agravou quando, no ano 6 d.C., Arquelau, filho de Herodes, foi deposto e a Palestina deixou de ser Estado vassalo de Roma para tornar-se província romana. Esta ficava sob a administração de um Prefeito romano, sujeita ao pagamento de uma taxa pessoal, dita tributum capitis (cf. Mt 22,15-22; Mc 12,13-17).

Tal situação provocou sucessivas revoltas populares no decorrer do século I. Entre os estudiosos modernos, há quem julgue que Jesus tinha algum vínculo com os zelotas e os sicários. Consideremos, portanto, mais minuciosamente estas duas facções.

Os zelotas

Este partido professava o zelo pela observância da Lei, seguindo o exemplo de Finéias, que tinha morto dois transgressores da Torá (cf. Nm 25,7-13), e de Matatias (cf. 1Mc 2,23-25). Tinham origem na Judéia, entre os sacerdotes do Templo. O seu ideal era a santidade da nação israelita, a pureza do culto e do Templo, a restauração do sacerdócio, legítimo (este era vendido a não levitas)... Cunharam moedas sobre as quais se liam as inscrições: “Jerusalém a santa” e “Liberdade de Sion”. Os seus interesses eram mais religiosos do que políticos e sociais; por isto queriam libertar dos pagãos a cidade de Jerusalém, mas não se empenhavam tanto por sacudir o jugo público dos romanos.

Os sicários

Os sicários eram assim chamados porque traziam oculto sob o manto um punhal (sica, em aramaico); era autênticos guerrilheiros, que viam na luta armada a premissa necessária para preparar a era messiânica. Originários da Galiléia, tinham por chefes os doutores da Lei e inspiravam-se fortemente na mentalidade religiosa dos fariseus. Recrutavam-se entre os camponeses, que aspiravam ao fim da exploração a eles imposta por ricos proprietários judeus tutelados por Roma. O seu fundador era Judas o Galileu, que recusava o recenseamento da população e a paga do tributo a Roma, pois tais instituições significavam o domínio de Roma sobre Israel. A única soberania reconhecida por Judas e pelos sicários era a do Senhor Deus. Por isto já no ano 6 d.C. Judas e seus seguidores iniciaram a revolta armada contra Roma.

Zelotas e sicários tinham em comum a oposição a Roma e aos seus aliados judeus filo-romanos. Todavia divergiam entre si a respeito de questões religiosas; estas diferenças vieram dolorosamente à baila quando um chefe sicário chamado Menahem entrou em Jerusalém com pretensões messiânicas e foi tragicamente morto pelos zelotas; tal fato provocou ruptura entre zelotas e sicários em plena guerra contra os romanos (66-70 d.C.).

Principalmente sob o governador Pôncio Pilatos (26-36 d. C.) e durante o reinado de Calígula (37-41 d.C.) foram freqüentes os movimentos sediciosos.

Em 66 todos os grupos revolucionários de Israel se uniram entre si numa famosa rebelião, que só terminou em 70, quando Jerusalém foi arrasada sob o comando do General Tito. Tiveram então partes destacadas na rebelião os zelotas e os sicários. Estes últimos foram responsáveis por nova rebelião em 132-135, que redundou na transformação de Jerusalém em cidade helenística com o nome de Aelia Capitolina.

O fato de que Jesus teve, entre os seus discípulos, um Simão Zelota (cf. Lc 6,15; At 1,13), um Pedro portador de espada (cf. Jo 18,10), um Judas Iscariotes (de Sica? Cf. Lc 6,16), dois irmãos chamados Tiago e João, filhos do Trovão (cf. Mc 3,17)... não significaria que Jesus vivia em freqüente contato com os zelotas e os sicários, compartilhando idéias dos mesmos?

Ao expulsar os vendilhões do Templo, Jesus, segundo Eisler, terá procedido como um autêntico zelota: tal gesto equivalia à ocupação do Templo por parte de Jesus e dos seus seguidores, com ataque aos cambistas e aos vendedores de animais lá instalados. Segundo Brandon, Jesus realizou uma agressão ao sistema comercial do Templo e, através deste, à aristocracia comercial que o controlava.
Jesus estava dentro da tradição dos Profetas de Israel, e não na seqüela dos chefes político-religiosos da época.

A acolhida de Jesus pela multidão em Jerusalém cinco dias antes da sua morte teve traços da recepção de um rei. Sim; a colocação de mantos e de ramos sobre a via, as aclamações “Hosana...” e “Bendito o reino que vem, o reino do nosso pai Davi!” tinham explícitas ressonâncias de expectativa de realeza. Segundo Reimarus, Jesus quis então reunir todo o povo de Jerusalém para fazer-se aclamar rei. Para Eisler, a entrada na Cidade Santa foi autêntica revolta anti-romana, durante a qual a multidão aclamou explicitamente Jesus Rei de Israel, pedindo-lhe que a libertasse do jugo estrangeiro e restaurasse o trono de Davi. Brandon julga que o episódio equivalia ao gesto de um chefe de fanáticos (= sicários) que proclamavam publicamente a sua pretensão à realeza.

Não há dúvida, o episódio foi proclamação de um rei. Todavia é preciso reconhecer que Jesus quis apresentar-se como um rei pobre e humilde, predito pela profecia de Zc 9,9; ora não era tal a concepção de rei messiânico que os nacionalistas judeus alimentavam; nem foi em tal sentido que a multidão entendeu as aclamações que proferiu diante de Jesus; ela esperava um Salvador político, guerreiro poderoso, e Jesus montado em jumentinho contrastava com tal imagem, a ponto que o evangelistas S. João nota que os discípulos não compreenderam o gesto de Jesus (cf. Jo 12,16).

A morte de Jesus crucificado como rebelde

47 Depois os principais dos sacerdotes e os fariseus formaram conselho, e diziam: Que faremos? porquanto este homem faz muitos sinais. 48 Se o deixamos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação. 49 E Caifás, um deles que era sumo sacerdote naquele ano, lhes disse: Vós nada sabeis, 50 Nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação. 51 Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. 52 E não somente pela nação, mas também para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos. 53 Desde aquele dia, pois, consultavam-se para o matarem. João 11 :47-53


A morte de cruz era infligida aos que se rebelavam no plano político, ao passo que o apedrejamento tocava aos profetas. Ora Jesus morreu crucificado, como um sedicioso, e não apedrejado, como um profeta.

Os judeus, para se ver livres de Jesus, deviam mover as autoridades romanas a condená-lo à morte, pois não lhes era lícito infligir a pena capital; todavia diante dos romanos somente as acusações de ordem política, não as religiosas, tinham valor. Foi por isto que, diante do Sinédrio (tribunal judaico), foram atribuídos a Jesus delitos religiosos (como o de haver pensado em destruir o Templo e o de blasfemar; cf. Mc 14,58-64), ao passo que diante de Pilatos somente acusações políticas foram apresentadas: “Encontramos este homem a sublevar o povo, a impedir que se pague tributo a César e a dizer-se Ele próprio Messias” (Lc 23,2). Tais acusações eram certamente fracas ou insuficientes, mas acabaram movendo Pilatos, que receava ser acusado em Roma de conivente com os adversários de César.
Sabe-se que os sicários tinham por ilícito tal pagamento, pois significaria a aceitação do domínio do Imperador, ao lado da senhoria de Deus, nem seria legítimo dizer Kaísar despótes (César é chefe).

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