
Como não envelheceram, permaneceram "eternamente jovens" no imaginário popular alimentado pela reprodução das imagens dessas celebridades em pôsteres, camisetas, souvenires etc. No caso específico de Che Guevara, a biografia em quadrinhos do guerrilheiro escrita e desenhada por Kim Yong-Hwe é mais um exemplo desse fenômeno.
Ao transformar Che Guevara em personagem de história em quadrinhos, o autor sul-coreano demonstra que o famoso guerrilheiro pode ser tão "eterno" quanto Batman, Super-Homem e Homem-Aranha, heróis da ficção que nunca envelhecem e morrem (ou quando "morrem", como é o caso do Super-Homem, são logo ressuscitados).
A diferença é que enquanto as aventuras dos heróis citados ajudaram a divulgar valores do american way of life (o estilo de vida norte-americano), Kim Yong-Hwe utiliza a linguagem dos quadrinhos para divulgar os ideais marxistas. Logo no início de sua narrativa, Kim Yong-Hwe faz uma comparação entre Che Guevara e um outro herói de ficção da indústria cultural norte-americana: Neo, protagonista do filme "Matrix" (interpretado pelo ator Keanu Reeves). Segundo o autor sul-coreano, enquanto Neo era "um herói imortal", Guevara teve "uma morte heróica".
Ícone cultural na Coréia do Sul
É bastante contraditório um autor que vive na Coréia do Sul, país com economia de mercado e altos índices de desenvolvimento (exemplo de país que investiu seriamente na educação e que hoje é um dos maiores fabricantes de celulares e outros produtos tecnológicos), produzir uma obra que louve uma revolução que implantou em Cuba um regime semelhante ao adotado na Coréia do Norte, país que se encontra no ostracismo.

Provavelmente, a explicação para a fascinação do autor sul-coreano por Che Guevara pode ser mais de natureza psicológica ou cultural do que política ou ideológica. A sociedade sul-coreana, assim como outras do Extremo Oriente (independentemente do regime político ou econômico) é extremamente hierarquizada (em parte pela influência da filosofia de Confúcio que pregava o respeito aos mais velhos e a obediência aos superiores hierárquicos), o que significa rigidez tanto na vida escolar quanto no ambiente de trabalho.
Para um jovem sul-coreano, estressado de tanta cobrança nos estudos, a idéia de um guerrilheiro se aventurando nas selvas de um país distante pode parecer extremamente convidativa, um sonho de liberdade.
Na história em quadrinhos, Kim Yong-Hwe afirma que Che se tornou um ícone cultural entre os jovens sul-coreanos ao mesmo tempo em que a banda de rock norte-americana Rage Against the Machine se popularizava na Coréia do Sul. Vale lembrar que a banda é conhecida não apenas pelo seu som pesado, mas também pelas letras de suas composições, caracterizadas pelo seu teor político, especialmente pelos protestos dirigidos ao governo do presidente norte-americano George W. Bush. Assim, podemos dizer que tanto Che quanto a banda Rage Againt the Machine são ícones culturais no imaginário esquerdista.
Visão parcial
O maior problema é que ele não diz quais livros e nem quais sites pesquisou. A historiografia sobre o assunto é vasta e abrange obras escritas por historiadores das mais diversas correntes (incluindo a marxista), o que inclui tanto simpatizantes quanto críticos do governo de Fidel Castro.

Entre os que produziram um retrato mais favorável do regime de Fidel estão o jornalista brasileiro Fernando Morais, autor de "A Ilha", livro-reportagem sobre a Cuba pós-Revolução. Entre os que já expressaram opiniões desfavoráveis ao regime cubano estão o também brasileiro Paulo Roberto de Almeida, diplomata e doutor em Ciências Sociais, autor de um artigo intitulado "A História Não o Absolverá", uma crítica à tolerância de grande parte dos intelectuais brasileiros ao governo ditatorial de Fidel.
A julgar pelo tom panfletário da história em quadrinhos, podemos concluir que o autor utilizou apenas fontes favoráveis ao guerrilheiro, a começar por testemunhos de amigos e parentes, pessoas que tinham ligações afetivas com Guevara e que, portanto, jamais poderiam descrevê-lo com mais objetividade e isenção.
Em vários momentos, a história em quadrinhos chega a lembrar uma hagiografia, isto é a biografia de algum santo católico, apesar do fato de que, como marxista, Guevara era declaradamente ateu.
Narrativa "cinematográfica": influência dos mangas

As histórias em quadrinhos se constituem numa arte que possui características muito específicas: diferente de um livro ilustrado, no qual as ilustrações apenas reproduzem o que está descrito no texto, os quadrinhos são mais parecidos com o cinema, no qual uma série de imagens são colocadas numa determinada seqüência para contar uma história. Os desenhos também devem ser "lidos", tal como as cenas de um filme.
O caráter "cinematográfico" dos quadrinhos é mais evidente nos mangás, os famosos quadrinhos japoneses, que exerceram forte influência na Coréia do Sul, onde os quadrinhos são chamados de manhwas. Essa influência dos mangás é bastante visível no trabalho de Kim Yong-Hwe.
As várias facetas de Che Guevara
A obra mostra ainda algumas das diversas facetas de Guevara: o filho atencioso, o guerrilheiro c

No entanto, "Che: uma Biografia" omite outros aspectos da trajetória de Guevara. Não menciona que, obedecendo às ordens de Fidel Castro, Che Guevara foi o responsável pela execução de pelo menos duzentos condenados nos "tribunais revolucionários". Essas execuções ocorreram na forma de fuzilamentos e teriam rendido a Guevara o apelido, na época, de "carnicerito".
Os julgamentos não passavam de fachada, pois os réus, independentemente de terem de fato ou não colaborado com o governo do ditador cubano Fulgêncio Batista, já estavam condenados à morte antes mesmo de serem julgados. Bastava a simples suspeita de traição para alguém ser preso e condenado em um julgamento sumário, como costuma acontecer em qualquer revolução.
Em um desses julgamentos, pilotos das forças de Batista foram acusados de terem bombardeado vilarejos e cidades, mas foram absolvidos por falta de provas. O veredicto não agradou Fidel que ordenou a exoneração dos juízes e a realização de um novo julgamento que condenou os pilotos. Nem mesmo partidários da Revolução Cubana foram poupados: o guerrilheiro Huber Matos, colega de Guevara, foi preso e condenado à vinte anos de prisão apenas por ter discordado dos rumos tomados pelo regime de Fidel e a aproximação de Cuba com a União Soviética.
Mais omissões
Jamais saberemos o que teria acontecido se Guevara ainda estivesse vivo. Talvez, ele tivesse se mantido fiel às suas convicções ou se tornado um crítico ainda mais radical do capitalismo e do que chamava de "imperialismo norte-americano". Por outro lado, talvez ele tivesse revisto suas opiniões, se tornado mais "moderado" ou mesmo renunciado ao marxismo e se arrependido de seus feitos de guerrilheiro. Nunca saberemos.
Seja como for, o mito criado em torno de Che Guevara permanece vivo e, ao que tudo indica, continuará assim por muito tempo. "Che:uma Biografia" é um exemplo da sobrevivência desse mito.

O subtítulo da biografia em quadrinhos é bastante apropriado, pois se trata de "uma" biografia, e não da biografia definitiva de Ernesto "Che" Guevara. Vale lembrar que existe uma obra homônima, uma biografia do guerrilheiro escrita pelo jornalista norte-americano Jon Lee Anderson, fruto de um trabalho de cinco anos, publicada no Brasil pela Editora Objetiva.
A versão em quadrinhos lançada pela Conrad pode ser uma interessante (e divertida) introdução ao assunto Revolução Cubana, mas sua leitura deve ser complementada com a de obras historiográficas mais atualizadas, de preferência, confrontando as opiniões de diferentes autores.
Túlio Vilela, formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula" (Editora Contexto).
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