segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A fé sem obras é morta” - Tiago 2:20

No final da década de 1950, ventos renovadores sopram sobre a Igreja Católica no Brasil. Graças ao envolvimento e militância de alguns membros do catolicismo, surge no interior do quadro religioso um movimento pela aproximação junto às camadas populares e aos grupos empenhados nas mudanças sociais. Porém, tal como o mundo que se achava dividido em áreas de influência devido à Guerra Fria, e tal como o país também dividido entre as forças que defendiam um desenvolvimento econômico nacionalista-popular e as que queriam um desenvolvimento econômico internacionalizado, a Igreja estava dividida quanto a essa nova orientação.
A participação da Igreja nas questões sociais se desenvolve lenta e gradualmente. De uma iniciativa pessoal e regional, torna-se um compromisso institucional no Brasil (com a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em 1952) e em toda América Latina (surge a Conferência Episcopal Latino-Americana/CELAM, em 1955). A atuação do papa João XXIII e o Concílio Vaticano II, convocado por ele, contribuíram muito para isto na medida em que trouxeram para a ordem do dia a constatação das desigualdades sociais e a necessidade de um desenvolvimento para todo o ser humano.
Reforçando a opção pelos pobres, ocorrem a II Celam, em Medelím (1968), e a Conferência de Puebla (1979). A encíclica de Paulo VI, Populorum Progressio, soma-se a este clima.
Medellín constituiu um marco por representar a ruptura com uma Igreja tradicional, preocupada apenas em divulgar doutrina e valores católicos, e por conter as raízes da Teologia da Libertação. Esta se trata de uma nova forma de fazer teologia, articulando fé e transformação social: a realidade social passa a ser interpretada à luz de Deus, tendo o cristianismo um papel a exercer na dimensão sociopolítica. A exploração econômica e a miséria social são encaradas como pecado, o que exige a libertação dos povos atormentados por ele. Assim orientada, a Igreja se envolve na luta em defesa dos direitos humanos e sociais, indo na contramão do regime ditatorial instalado em 1964 no Brasil, que desrespeitava tais direitos.
Para exemplificarmos a teologia da Libertação, utilizaremos as idéias do ex-frade franciscano, o teólogo Leonardo Boff. Segundo ele, haveria na sociedade pouca Como se daria, então, o fim da opressão e o nascimento de uma sociedade justa e com oportunidades de desenvolvimento para todos? Boff sintetiza: “a comunhão e muita opressão sobre os pobres, sendo as sociedades latino-americanas condenadas à dependência. Trindade é o nosso verdadeiro programa social” Leonardo Boff afirma que, se a Trindade não for compreendida, se houver ênfase unilateral na figura do Pai, ou do Filho, ou do Espírito Santo, a sociedade sofrerá disparidades.
No primeiro caso, Boff sustenta que uma sociedade patriarcal teria uma imagem de Deus como o Pai-todo-poderoso, Senhor absoluto e Juiz Supremo. Não há, ao lado desse Pai, lugar pra um Filho ou um Espírito Santo em comunhão. Jesus também seria chamado de Pai, e o ser humano se sente mais servo do que filho. As sociedades de Nuestra America se enquadram neste caso, onde há uma relação vertical, com o domínio da religião só do Pai.
Já uma segunda interpretação errônea da Trindade é aquela de relação horizontal (comum em sociedades mais modernas), onde o desempenho de figuras carismáticas é valorizado, surgindo a figura de um líder, um irmão ou companheiro. Essa relação, chamada de horizontal, tende a enfatizar a figura de Cristo, com suas atitudes heróicas, muitas vezes desvinculadas do Pai. Essa seria a religião só do Filho que, segundo Boff, gera movimentos como o fascismo.
A terceira interpretação equivocada seria a de grupos carismáticos, onde a busca da paz, superação dos conflitos e satisfação das necessidades pessoais religiosas ganham maior importância. Nesse caso, aparece a chamada “fé cega”, onde a individualidade ganha maior expressão. Há então o crescimento do fanatismo e da anarquia. Seria esta a religião só do espírito, voltada para a relação interior.
Assim, somente a compreensão da Trindade enquanto una, formando uma esfera de comunhão, pode gerar uma sociedade com oportunidades iguais para todos os indivíduos. Não há superioridade de uma pessoa em relação à outra. Chegaríamos ao fim da opressão.
Boff fora perseguido pelo Cardeal Ratzinger em 1984. Este moveu um processo contra seu livro Igreja: Carisma e Poder. Na Congregação para a Doutrina da Fé (antigo Tribunal da Santa Inquisição) Ratzinger mostrou-se irredutível impondo-lhe o silêncio.
Tendo como base esta teologia abordada acima, surgem tanto no Brasil como em outros países da América ao sul dos Estados Unidos, as Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s): vínculo entre a fé e a atividade política. Estas surgem ainda na década de 1960 e podem ser caracterizadas como pequenos grupos baseados na fé e organizados em torno da paróquia (urbana) ou capela (rural), por iniciativa de padres, bispos ou, e principalmente, leigos (agentes pastorais).
No contexto de Ditadura Militar, no Brasil, onde os canais de participação popular foram suprimidos, as CEB’s mostram-se lugares onde os trabalhadores poderiam se mobilizar e organizar. Elas se orientam pelo método Ver-Julgar-Agir: identificando as dificuldades, pensam qual julgamento teria Jesus e, finalmente, planejam uma forma concreta de enfrentar o problema, ou seja, consciência sensibilizada gerando uma ação conseqüente.
O papel educativo é uma das características mais importantes das CEB’s. Os “círculos bíblicos” eram instrumentos de sensibilização para a realidade social utilizando textos bíblicos para interpretarem o presente. Esta pedagogia confiava na capacidade do povo de pensar, agir e se organizar, delegando a responsabilidade aos participantes. Propiciar conhecimento crítico e aprofundado da realidade social tornou-se condição da evangelização.
Um dos ícones deste processo de conscientização dos camponeses sobre seus direitos foi Dom Hélder Câmara, criticado pelas direitas como o “bispo vermelho”, apesar de nunca ter aceitado o marxismo.
Sua influência não se limitou ao Brasil, alcançou o Concílio Vaticano II, e viajou pelo mundo, defendendo arduamente os Direitos Humanos, os presos políticos e denunciando a tortura. Desejava uma Igreja mais participativa, orientada para a defesa dos pobres e a favor dos movimentos sociais assim como outros teólogos da libertação que, como Frei Betto, continuam na luta apesar da contínua perseguição. Dom Hélder Câmara na defesa dos pobres e a favor dos movimentos sociais.



  • CRONOLOGIA
    1955 - I Conferência Episcopal Latino-Americana, no Rio de Janeiro/CELAM. Fundação da mesma.
    1962-1965 - Concílio Vaticano II
    1964 - Golpe civil-militar no Brasil
    1967 - 26/03 - Encíclica Populorum Progressio, de Paulo VI.
    1968 - 26/08 a 06/09 - II Conferência Episcopal Latino-Americana, em Medellín (Colômbia)
    1979 - Conferência de Puebla
    1980 - Morre assassinado em El Salvador o arcebispo Oscar Arnulfo Romero.
    06/8/1984 - “Instrução” da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a Teologia da Libertação
    07/9/198 - Imposição de silêncio a Leonardo Boff, um dos principais teólogos da libertação do Brasil. 1999 - Morre Dom Hélder Câmara, criticado pelas direitas como o “bispo vermelho”, um dos ícones da Teologia da Libertação.
    Por:

  • Ana Luiza Falcão de Souza
    Ellen da Costa Guedes
    Layanna Cristina Lourenço de Azevedo
    http://www.historia.uff.br/nec/ellenteologiafinal.htm#_ftn1

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