sexta-feira, 26 de junho de 2009



Dentro da estratégia de evitar o surgimento de "novas Cubas", os Estados Unidos voltaram a atenção para o maior e mais importante país da América Latina, o Brasil.No início dos anos 60, a situação no Brasil era de instabilidade política. Em 25 de agosto de 1961, o presidente Jânio Quadros renunciou ao cargo sete meses depois de eleito, numa frustrada manobra política para ampliar seus poderes.

O Congresso aceitou a renúncia e o país mergulhou numa séria crise política. Os militares de direita não queriam a posse do vice de Jânio, João Goulart, um político identificado com o trabalhismo de Getúlio Vargas.


o surgimento de grandes concentrações de trabalhadores urbanos, que se organizaram em sindicatos para exigir seus direitos. Dentro desse contexto, a ascensão de um líder trabalhista como João Goulart parecia significar uma ameaça aos interesses tradicionais dos grupos dominantes brasileiros.

O avanço das lutas trabalhistas e o prestígio de líderes como Luís Carlos Prestes, dirigente do Partido Comunista Brasileiro, assustavam os setores mais conservadores da classe média e da Igreja Católica. Políticos influentes, grupos de direita, setores da igreja e donas-de-casa organizaram passeatas em defesa da religião, da família e da liberdade, valores que julgavam ameaçados pelo avanço comunista. A sociedade marchava para uma crise de graves proporções.

Os militares brasileiros tomaram o poder em 31 de março de 64. Vários dispositivos legais impuseram a censura à imprensa, suspenderam as liberdades democráticas e tornaram ilegais os partidos de oposição, os sindicatos e as associações de classe. Agentes da polícia política, o Dops e o Doi-Codi, perseguiam e prendiam os opositores do regime militar. Todas as operações eram descritas como "medidas de guerra" contra o que os governantes chamavam de "comunismo internacional". Muitos opositores foram torturados ou assassinados. Vários deles desapareceram para sempre.A consolidação do regime militar aconteceu em dezembro de 68, quando o presidente, general Arthur da Costa e Silva, assinou o Ato Institucional número 5. O AI-5 conferia ao governo o poder de cassar mandatos políticos, decretar o recesso do Congresso, impor estado de sítio e suspender as garantias individuais.

Os anos 70 foram extremamente difíceis também para outros países da América Latina. Muita violência política aconteceu no Chile, onde o presidente socialista Salvador Allende foi derrubado por um golpe militar, em 1973. Tanto no Brasil como no Chile, o rumo dos acontecimentos foi acompanhado de perto por Washington. Na visão da Casa Branca, a imposição de ditaduras militares nos países latino-americanos fazia parte da luta contra o comunismo.

O poder passou às mãos de uma junta militar chefiada pelo general Augusto Pinochet. Num clima de forte repressão, Pinochet dissolveu os partidos políticos e perseguiu os adversários do novo regime. O Estádio Nacional foi transformado em campo de concentração, lotado de presos políticos. Muitos deles desapareceram. Houve casos de prisioneiros torturados até a morte.

Em 1976, no entanto, a Argentina passaria a integrar o grupo. Durante sete anos, os argentinos viveram sob um regime militar repressivo que passaria à história como o período da "guerra suja" empreendida pela ditadura contra os seus opositores. No final dos anos 60, a Argentina vivia uma crise política e um período de mobilização popular contra o governo do general Juan Carlos Onganía. Em 1970, Onganía foi deposto. Vários militares se sucederam no poder até que, em 73, novas eleições livres foram convocadas. Com a morte de Peron, em julho de 74, sua segunda mulher, a vice-presidente Isabelita, assumiu a chefia do governo e ampliou o espaço dos políticos conservadores do Partido Justicialista.

Isabelita foi deposta em março de 76 por um golpe liderado pelo general Jorge Rafael Videla. Uma junta militar passou a dirigir o país. Fechou o Congresso, dissolveu os partidos políticos e iniciou a chamada "guerra suja" contra os oposicionistas. Até o fim da ditadura, em 83, desapareceriam mais de 30 mil pessoas na Argentina.

Nem só de golpes de direita viveu a América Latina nos anos da Guerra Fria. Em 1979, um pequeno país da América Central desafiou o poderio norte-americano e fez sua revolução nitidamente popular chegar à vitória: a Nicarágua. A revolução sandinista marcou mais um capítulo na longa história de luta da Nicarágua pela sua soberania. A ingerência dos Estados Unidos sobre a vida política da Nicarágua vem desde o século XIX. No começo do século XX, o governo de Washington ampliou sua influência, interessado em proteger seu monopólio sobre o canal entre os oceanos Atlântico e Pacífico, inaugurado no vizinho Panamá em 1914.A ostensiva presença norte-americana na Nicarágua gerou a criação de movimentos nacionalistas de resistência.

Foi o estopim de uma insurreição nacional liderada pelos sandinistas. Os guerrilheiros derrotaram a Guarda Nacional e tomaram o poder em julho de 79.

Estava cada vez mais claro que os sandinistas caminhavam na direção de um regime socialista simpático a Cuba e à União Soviética.

Essa idéia era intolerável para o governo conservador do presidente norte-americano Ronald Reagan. Ainda mais porque movimentos guerrilheiros esquerdistas ameaçavam tomar o poder em outros países da América Central, em particular em El Salvador e na Guatemala.

Em outubro de 83, Reagan ordenou a invasão de Granada, uma pequena ilha da América Central próxima da costa da Venezuela. Na época, a ação foi interpretada como um alerta à Nicarágua.


O pretexto para a invasão foi garantir a segurança de cidadãos norte-americanos, supostamente em risco depois do golpe de Estado que derrubou o primeiro-ministro Maurice Bishop. As tropas norte-americanas, no entanto, desmantelaram a formação do novo governo, de tendência socialista, liderado pelo general Hudson Austin.

As medidas do presidente norte-americano Ronald Reagan faziam parte de uma política externa inflexível com relação à União Soviética e ao comunismo de modo geral.


Além disso, foram os próprios Estados Unidos que treinaram grande parte dos militares latino-americanos responsáveis por atrocidades cometidas atualmente e ao longo da história recente desses países. Esse treinamento de alguns dos maiores violadores de direitos humanos na região ocorreu na Escola das Américas, instituição do governo norte-americano, cujos manuais ensinavam técnicas de tortura, extorsão, intimidação psicológica e execução, instruindo seus alunos a ter especial atenção a sindicalistas e outros lutadores sociais.

Essa situação de completa impunidade em relação a desaparecimentos políticos, torturas e assassinatos políticos percorre toda a América Latina, principalmente em relação aos crimes que ocorreram nas ditaduras militares.

Os familiares das vítimas, no entanto, continuam lutando por verdade e Justiça. “Nossa reparação não é econômica, é moral e política”, afirma a mexicana Judith Galarza Campos, secretária executiva da Federação Latino Americana de Associações de Familiares de Detidos Desaparecidos (Fedefam).


“Não queremos que ninguém no mundo volte a passar pelo que passamos, só quando for feita justiça esses horrores deixarão de acontecer”, diz.



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